Foto: Bruno Santos/Folhapress
O Nordeste e a nova fragilidade eleitoral de Lula para 2026
A força eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva sempre teve um endereço muito claro: o Nordeste. Foi ali que o petista construiu sua maior vantagem histórica, transformando a região em um verdadeiro “colchão eleitoral” capaz de compensar desempenhos mais frágeis no Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Em 2022, essa lógica se confirmou mais uma vez, com Lula alcançando cerca de dois terços dos votos válidos na região. No entanto, o cenário que começa a se desenhar para 2026 aponta para uma mudança relevante — e potencialmente decisiva.
As pesquisas mais recentes indicam que Lula ainda lidera com folga no Nordeste, mas já não exibe a mesma hegemonia de antes. A diferença para adversários diminuiu, e em alguns estados há sinais claros de erosão. Não se trata de uma reversão completa, mas de uma perda de intensidade — e, em política, intensidade importa tanto quanto liderança. Uma queda de cinco a dez pontos percentuais em sua principal base pode parecer pequena à primeira vista, mas tem efeito direto no resultado nacional, especialmente para um candidato que enfrenta dificuldades estruturais em outras regiões.
E é justamente fora do Nordeste que reside o principal problema do presidente. No Sudeste, maior colégio eleitoral do país, Lula segue enfrentando resistência significativa, com desempenho irregular e, em alguns cenários, atrás de potenciais adversários. No Sul, a rejeição permanece elevada, mantendo o padrão observado nas últimas eleições. Já no Centro-Oeste, o ambiente político continua amplamente desfavorável, com forte inclinação conservadora. Ou seja: não há, hoje, sinais consistentes de expansão eleitoral fora de sua base tradicional.
Esse quadro cria uma equação delicada. Para viabilizar um quarto mandato, Lula precisaria repetir — ou ao menos se aproximar — da votação expressiva que teve no Nordeste em 2022. Qualquer recuo mais acentuado ali exigiria compensações em outras regiões, algo que, até o momento, não aparece nas pesquisas. Pelo contrário: o presidente parece estabilizado em patamares competitivos, porém insuficientes para uma vitória confortável em um cenário polarizado.
Além disso, há um fator político adicional: o desgaste natural de quem está no poder. Problemas econômicos, cobranças por resultados e a própria fadiga do eleitorado tendem a impactar mais fortemente regiões onde o apoio já foi quase unânime. O Nordeste, nesse sentido, pode deixar de ser um território de votação “cativa” para se tornar um campo mais competitivo — ainda favorável a Lula, mas longe da blindagem eleitoral de outros tempos.
A eleição de 2026, portanto, tende a ser menos sobre expansão e mais sobre contenção de perdas. E nesse jogo, o Nordeste continuará sendo central, mas não necessariamente suficiente. Se a tendência de queda se confirmar, Lula entrará na disputa dependendo de um equilíbrio delicado: manter vantagem onde sempre foi forte, sem conseguir avançar onde sempre teve dificuldade. Uma estratégia arriscada — e que pode transformar sua maior fortaleza em um sinal de alerta.

Por Augusto César