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INTERNACIONAL

JOVEM DE GARANHUNS QUE ESTAVA LUTANDO NA GUERRA DA UCRÂNIA COM A RÚSSIA MORRE EM COMBATE

Augusto César Por Augusto César
JOVEM DE GARANHUNS QUE ESTAVA LUTANDO NA GUERRA DA UCRÂNIA COM A RÚSSIA MORRE EM COMBATE

Texto de Marcos Antônio

1 – Em meados dos anos 80 quando dei baixa do outrora glorioso e respeitado Exército de Caxias após dois anos servindo a uma instituição que a época eu acreditava ser uma instituição séria e honesta. Servi por dois anos e era um bom militar com habilidade em usar um fuzil 7,62, uma arma de padrão de batalha com boa precisão e alcance efetivo de 600 metros. E, eu era bom de tiro, tanto de fuzil quanto de pistola Beretta 9 mm além de fazer parte do pelotão de canhão aonde tive treinamento para usar o famoso canhão 106mm. Que ainda existe e é utilizado por diversos exércitos ao redor do mundo, embora seja considerado uma arma obsoleta frente aos modernos mísseis antitanque. No Brasil, foi aposentado oficialmente pelo Exército em 2011 devido ao alto custo da munição.
2 – Num daqueles dias ociosos eu me encontrava com alguns amigos numa praça em frente ao Perola Joias, a loja mais badalada da cidade com muita moça bonita que trabalhava por lá. Lá na frente do Perola nós íamos chegando e com poucas horas por lá, formávamos um grande grupo de desempregados pensando o que faríamos da vida após a vida na caserna. Discutindo o futuro e lembrando dos bons momento no quartel do 71BI Motorizado aonde servi voluntariamente.

3 – Um certo dia um colega chegou empolgado nos comunicando que o governo americano estava convocando ex militares de todo mundo, mercenários, para se alistarem no Exército americano para combaterem os sandinistas que era um movimento guerrilheiro de esquerda que derrubou a ditadura da família Somoza na Nicarágua em 1979 que defendiam ideais socialistas, anti-imperialistas e nacionalistas. A ideia era a seguinte: os EUA (governo Reagan) financiaram e treinaram os “Contras”, rebeldes anticomunistas, contra o governo sandinista. E nós como mercenários estaríamos ao lado dos contra nessa empreitada. Seríamos treinados e pagos pelo governo americano.
4 – Um colega que não lembro o nome falou de muitas vantagens e a principal e mais instigante sem dúvida nenhuma era a parte financeira. Uma grana boa que confesso que não lembro o valor, mas que me sustentaria uns bons anos sem trabalhar caso sobrevivesse ao conflito e com possibilidades reais de após o conflito ir morar na Terra do Tio Sam. Fui para minha casa nessa expectativa real de sair da minha cidade Garanhuns e viajar por mais de 5.700 quilômetros até a capital Managua aonde me juntaria aos outros futuros colegas de conflito que por lá estariam para nos juntarmos ver o que aconteceria, enfim.
5 – Pois bem eu tive alguns dias para pensar sobre o assunto. Tinha pouco mais de 20 anos. Estava no auge da minha força física, técnica, cheio de adrenalina e imbuído de um espirito de aventura que me fazia não enxergar o perigo que era estar num ambiente hostil, que eu não conhecia. Me lembrei então da frustrada incursão americana na guerra do Vietnã nos anos 60/70. Uma guerra que os americanos saíram após quase 20 anos derrotados. Apesar da superioridade militar dos Estados Unidos, a resistência vietnamita, táticas de guerrilha e o custo elevado da guerra levaram os EUA a se retirarem e perderem o conflito.
6 – Confesso que não comuniquei a ninguém da família pois tinha certeza que seria voto contrário nas minhas argumentações. Mas, depois de muitas ponderações, reflexões, considerações e avaliando as situações com prudência, equilíbrio e profundidade. Analisando prós e contras, interpretando emoções e aplicando a sensatez para tomadas de decisão conscientes, evitando a impulsividade eu cheguei à conclusão que não valeria eu lutar numa guerra que não era minha. E, talvez morrer longe do meu porto seguro e longe da minha família por uns milhares de dólares não valeria a pena. Ter o meu nome talvez grafado como um mercenário que morreu por uma causa que não era a minha causa me demoveu imediatamente da ideia e talvez do sonho americano. Comuniquei a minha decisão ao colega recrutador e levei minha vida por alguns poucos anos em Garanhuns e depois migrei para São Paulo no começo do ano de 89.
7 – Fiz toda essa introdução contando um caso real que aconteceu comigo no passado para dizer que nesta terça-feira, dia 05 de maio de 2026, tive a triste notícia através do blog Comando Policial, que um jovem de Garanhuns de nome Lucas Schaefer Leite, morador do bairro Magano, que estava lutando na guerra da Ucrânia foi morto em confronto com o exército russo. Lucas estava no território ucraniano desde janeiro desse ano e atuava na área conhecida como “linha zero”, um setor crítico da guerra que ocorre entre Rússia e Ucrânia. Ele também integrava um grupamento voltado a ações ofensivas, responsável por avançar a retomar territórios ocupados.
8 – Á família já foi comunicada através de uma autoridade ucraniana da morte do jovem que foi morrer longe de casa por uma guerra que não era sua. Não conhecia o Lucas. Vi algumas postagens dele inclusive num vídeo enviado ao radialista Eduardo Peixoto ele falava sobre achar a “ guerra da Rússia contra a Ucrânia ser injusta e que não sabia quanto tempo ficaria por lá”. Não precisou um tempo para deixar a Ucrânia pois tinha ainda contrato de 3 anos. E, que Deus iria preparar o momento certo para sua volta. E, que só ia queria deixar aquele país quando o dever dele fosse cumprido. Infelizmente não deu tempo.
9 – Desconheço também os motivos do seu alistamento, mas reconheço a força, a coragem e talvez o ideal desse bravo guerreiro que tombou em combate em terras distantes. Me solidarizo com a família e amigos. Que Deus o ponha no lugar reservado aos justos conforme nos fala a Bíblia.

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