Esse foi gigante :Ele caiu em casa numa manhã tranquila de domingo, apenas cinco dias depois de completar noventa e cinco anos. Estava se preparando para ir à igreja quando tropeçou e bateu a testa na quina dura de um móvel. O impacto abriu a pele fina como papel. Foi levado ao hospital, onde recebeu quatorze pontos acima do olho esquerdo. Um hematoma enorme, escuro, espalhou-se por metade do rosto, e uma faixa branca foi colada na testa.
A equipe olhou para ele com apreensão. Perguntaram, com toda a delicadeza possível, se não era melhor cancelar o evento marcado em Nashville. Ele estava ferido, exausto e com idade para descansar.
A resposta de Jimmy Carter veio sem hesitar:
“Minha prioridade número um era vir a Nashville e construir casas.”
E naquela mesma noite — usando um boné dos Atlanta Braves, o rosto marcado por bandagens, hematomas e a teimosia de quem simplesmente se recusa a recuar — ele subiu ao palco do Ryman Auditorium. Centenas de voluntários se levantaram para aplaudi-lo. No dia seguinte, como se nada tivesse acontecido, ele estava no canteiro de obras.
Aos noventa e cinco anos. Com um martelo na mão.
Não era pose. Não era espetáculo. Era apenas quem Jimmy Carter sempre foi.
James Earl Carter Jr. veio ao mundo em 1º de outubro de 1924, em Plains, uma cidadezinha da Geórgia com menos de setecentos habitantes. A casa em que cresceu não tinha água encanada, muito menos eletricidade — luxos que só chegaram quando ele já era adolescente. O pai era um fazendeiro disciplinado. A mãe, Lillian, era enfermeira, uma mulher cuja vocação era servir: tanto que aos sessenta e oito anos decidiu ingressar no Corpo da Paz, acreditando firmemente que ainda podia ajudar pessoas do outro lado do mundo.
Foi assim que Carter aprendeu o que guiaria toda a sua vida: servir não é um discurso. É um gesto.
Serviu na Marinha. Serviu no Senado estadual da Geórgia. Foi governador. E, de 1977 a 1981, tornou-se o 39º presidente dos Estados Unidos.
E, após deixar a Casa Branca, continuou servindo — talvez até mais do que antes.
Em setembro de 1984, apenas três anos depois de encerrar seu mandato presidencial, Carter pegou um martelo e se voluntariou na Habitat for Humanity pela primeira vez. Tinha cinquenta e nove anos e imaginava que seria apenas uma ação pontual, um dia de trabalho comunitário.
Mas aquele dia virou um novo propósito.
Ainda naquele ano, ele e Rosalynn estavam caminhando por Nova York quando avistaram uma obra da Habitat praticamente abandonada, quase sem voluntários. Aproximaram-se. Começaram a trabalhar. Chamaram mais pessoas. Transformaram um edifício deteriorado em lar para dezenove famílias.
E nunca mais pararam.
Por trinta e cinco anos, Jimmy e Rosalynn Carter voltaram, ano após ano, ao trabalho. Sob chuva, calor, vento, doenças, viagens longas. País após país. Telhado após telhado. Sempre com o mesmo espírito humilde: construir algo para quem nada tinha.
Então veio agosto de 2015.
Carter tinha noventa anos quando os médicos encontraram um tumor no fígado. Depois da cirurgia, veio a notícia devastadora: melanoma metastático. Uma das formas mais agressivas de câncer de pele. E o pior: as varreduras mostraram quatro pontos espalhados pelo cérebro. Sem tratamento, os médicos estimaram que ele provavelmente teria menos de seis meses de vida.
Jimmy Carter apareceu diante da imprensa, com um sorriso calmo, e declarou:
“Tive uma vida maravilhosa. Estou pronto para o que vier.”
Os médicos iniciaram um tratamento novo, uma imunoterapia aprovada pelo FDA apenas um ano antes, combinada com radioterapia extremamente precisa. E então, algo quase milagroso aconteceu.
Funcionou.
No fim de 2015, poucos meses após o diagnóstico, Carter foi oficialmente declarado livre do câncer.
E fez o que sempre fez.
Voltou a construir casas. Em 2019, ele caiu e fraturou o quadril. Recuperou-se. Voltou ao trabalho. Depois veio aquela manhã de domingo — cinco dias após celebrar seu aniversário de noventa e cinco anos — quando voltou do hospital com quatorze pontos na testa e um rosto roxo de hematomas. Mesmo assim, colocou seu boné, subiu ao palco do Ryman Auditorium naquela noite e, no dia seguinte, estava de volta ao canteiro de obras, martelo firme na mão.
Ao longo de mais de quatro décadas, Jimmy e Rosalynn Carter ajudaram a construir, reformar e restaurar mais de 4.400 casas ao redor do mundo. Trabalharam lado a lado com mais de cem mil voluntários. Famílias inteiras, que antes não tinham nada, passaram a ter algo sólido, algo seguro, algo seu.
Porque um homem que teve tudo continuou indo onde era necessário.
Jimmy Carter morreu em 29 de dezembro de 2024, em sua casa em Plains, Geórgia, cercado pela família.
Tinha cem anos. O presidente mais longevo da história dos Estados Unidos.
Ele nunca foi perfeito. Ninguém é. Mas durante quarenta anos, depois de deixar o cargo mais poderoso do mundo, nunca largou o martelo. Nunca deixou de servir. Nunca deixou de aparecer onde podia fazer o bem.
Quando caía — levantava. Quando adoecia — tratava-se e voltava ao trabalho. Quando seu corpo pedia descanso — ele respondia que ainda havia alguém esperando por um lar.
Muitos dizem acreditar em algo.
Jimmy Carter construiu aquilo em que acreditava.

Por Augusto César