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OPINIãO

A expressão de “O Príncipe” em Pernambuco

Augusto César Por Augusto César
A expressão de “O Príncipe” em Pernambuco

Foto: Reprodução/ Fabio Rodrigues Pozzebom /ABR

EDMAR LYRA – Poucos livros atravessaram os séculos com tanta força quanto O Príncipe, de Nicolau Maquiavel. Publicada no século XVI, a obra permanece atual por sua capacidade de explicar os mecanismos do poder, da liderança e da construção de projetos políticos duradouros. Entre os personagens que inspiraram o pensador florentino, nenhum se destaca mais do que César Bórgia, governante que soube combinar ousadia, inteligência estratégica e capacidade de adaptação às circunstâncias. Maquiavel enxergou nele a expressão prática de muitos dos conceitos que defendia, especialmente a habilidade de compreender o momento histórico e agir de forma decisiva. Ao longo do tempo, os ensinamentos do livro transcenderam fronteiras e gerações, servindo como referência para líderes que entenderam que a política é feita tanto de planejamento quanto de conhecimento profundo da natureza humana.

Em Pernambuco, poucos personagens contemporâneos exerceram influência tão marcante quanto o ex-governador Eduardo Campos. Doze anos após sua morte e vinte anos depois de sua eleição para o Governo do Estado, sua presença continua perceptível no cenário político local. O secretário-executivo do Ministério da Saúde, Mozart Sales, que conviveu com Eduardo e acompanhou parte de sua trajetória, costuma destacar que a principal característica do ex-governador era a capacidade de formar quadros e preparar lideranças. Não por acaso, grande parte dos protagonistas da política pernambucana atual passou, em algum momento, por sua influência direta ou indireta. Nomes como João Campos, Raquel Lyra, Paulo Câmara e Geraldo Julio, embora sigam caminhos distintos, carregam marcas de uma escola política construída ao longo dos anos por Eduardo.

Mas a herança deixada pelo ex-governador vai além da formação de lideranças. Eduardo Campos compreendia algo que nem sempre é ensinado nos livros de administração pública ou nas estratégias eleitorais: a política é feita de pessoas. Sua habilidade de dialogar com diferentes setores da sociedade, ouvir aliados e adversários e interpretar o sentimento popular permitiu que construísse uma trajetória singular. Como acontece com muitos líderes de destaque, enfrentou momentos de isolamento e adversidade. Viveu períodos de ostracismo político, viu projetos serem contestados e precisou reconstruir espaços de influência. Em vez de sucumbir às dificuldades, utilizou cada desafio como oportunidade para fortalecer sua posição, consolidando uma imagem de liderança resiliente e preparada para enfrentar cenários complexos.

Talvez seja justamente nesse aspecto que os ensinamentos de Maquiavel encontrem maior paralelo na experiência pernambucana. A permanência de uma liderança não se mede apenas pelos cargos que ocupa, mas pela capacidade de moldar o ambiente político mesmo após sua ausência. Eduardo Campos transformou-se em uma referência que continua influenciando decisões, alianças e projetos mais de uma década depois de sua partida. Seu legado demonstra que o verdadeiro poder não está apenas na conquista de posições, mas na formação de uma geração capaz de dar continuidade a uma visão de futuro. Em Pernambuco, a expressão contemporânea de muitos dos conceitos descritos em O Príncipe pode ser observada justamente na longevidade de uma influência política que segue presente e determinante para os rumos do Estado.