Da esq. para dir. João Pires, ex-secretário do Procon-RJ, Antônio Rueda e Ciro Nogueira
Do Portal GGN – A delação premiada de Beto Louco, apontado como o principal elo entre a máfia dos combustíveis e o Primeiro Comando da Capital (PCC), tem o potencial de provocar um abalo sísmico nas instituições brasileiras, superando em gravidade e capilaridade o escândalo do Banco Master.
O alerta é de João Pires, ex-secretário de Proteção e Defesa do Consumidor do Rio de Janeiro e sobrevivente de um atentado relacionado à sua atuação contra a máfia dos combustíveis, em entrevista à TV GGN na sexta-feira (10).
“A delação de Beto Louco tem um potencial de abalar a República tanto quanto o Banco Master, ou até pior. Estamos falando das 27 unidades da federação. Hoje não tem uma unidade que esteja ilesa”.
Nesta sexta-feira (10), Beto Louco protocolou junto ao Ministério Público de São Paulo sua proposta de delação premiada, no âmbito da Operação Carbono Oculto.
O elo com Brasília
A manutenção desse sistema bilionário, explica Pires, dependeria diretamente da blindagem oferecida por figuras de altíssima influência no Congresso Nacional. Segundo ele, nomes centrais do União Brasil e do PP aparecem invariavelmente ligados aos grandes escândalos do país, mencionando a recente união dessas forças políticas como uma forma de consolidar esse domínio.
“Antônio Rueda é um dos homens mais poderosos do Brasil e está envolvido em praticamente todos os grandes escândalos. Ele e o senador Ciro Nogueira são os campeões; não tem um escândalo em que os dois não estejam envolvidos. Para consolidar essa dobradinha, União Brasil e PP se unem agora em federação. Muita gente teme falar desses personagens, mas é preciso dar luz a isso”.

A engrenagem da corrupção estatal
O esquema criminoso opera à luz do dia devido ao suborno deliberado de agentes públicos em cargos estratégicos. Segundo o ex-secretário, a fraude é conhecida pelos órgãos de controle, mas a fiscalização é travada por uma rede que alcança secretarias de Fazenda e o Judiciário, garantindo que refinarias e postos irregulares continuem funcionando via liminares.
“O poder público sabe muito bem como funciona e sabe como combater. Os grandes vilões são auditores de receita envolvidos com secretários estaduais de Fazenda, que operam esquemas de alvará e sonegação na cadeia de distribuição”.
A verticalização do crime e a blindagem em fintechs
A máfia também teria avançado para a “verticalização” do setor, controlando desde a importação e o refino, com destaque para casos como o da Refit – alertado pelo GGN – até a venda direta ao consumidor em postos administrados por laranjas. Para lavar o dinheiro e fugir do rastreio do COAF e da Receita Federal, o grupo utiliza estruturas complexas no mercado financeiro e novas tecnologias.
“Ninguém movimenta tanta grana sem gente com lastro. Eles utilizam holdings ligadas a fundos para dificultar o rastreio. Hoje, concentram-se muito nas fintechs pela dificuldade maior que os órgãos de controle têm de acessar esses dados. Estão avançando fortemente em comprar postos para escoar e lavar esse dinheiro”.

Por Augusto César