EDMAR LYRA – Alexandre de Moraes decidiu enfrentar o bolsonarismo como poucos integrantes do Judiciário brasileiro fizeram. No comando do Tribunal Superior Eleitoral, adotou uma linha duríssima contra Jair Bolsonaro e seus aliados, acumulando decisões que, embora amparadas por fundamentações jurídicas e posteriormente submetidas aos mecanismos institucionais de controle, produziram uma consequência política impossível de ignorar: para milhões de brasileiros, deixou de existir a imagem de um árbitro distante da disputa. A multa de aproximadamente R$ 22,9 milhões aplicada ao PL depois do questionamento sobre parte das urnas utilizadas em 2022 tornou-se um dos maiores símbolos daquele ambiente. Na percepção de uma parcela do eleitorado, era como assistir a uma partida em que o juiz não apenas apitava, mas parecia entrar em campo vestindo a camisa de um dos adversários.
A justificativa sempre foi a defesa da democracia. E não há dúvida de que as instituições precisavam responder aos ataques contra o processo eleitoral e, posteriormente, aos acontecimentos de 8 de janeiro. Mas defender a democracia não concede a nenhuma autoridade um cheque em branco. Alexandre de Moraes ultrapassou, na percepção de seus críticos, a fronteira que separa a firmeza institucional do protagonismo político. Tornou-se personagem, antagonista e símbolo. Um ministro do Supremo deveria ser lembrado principalmente pelos seus votos e pela solidez de sua jurisprudência, não pela condição de adversário preferencial de uma corrente política que representa milhões de eleitores. Ao personalizar esse enfrentamento, Moraes ajudou a politizar ainda mais o STF e ofereceu ao bolsonarismo aquilo de que todo movimento político necessita para sobreviver às derrotas: um inimigo.
Eis a ironia. Se Moraes utilizou simbolicamente a braçadeira de capitão no enfrentamento que culminou no isolamento político e jurídico de Jair Bolsonaro, pode ter colaborado decisivamente para construir a narrativa que hoje beneficia Flávio Bolsonaro. O bolsonarismo poderia ter entrado em processo de esvaziamento sem Jair nas urnas. Em vez disso, ganhou um argumento poderoso para reorganizar suas bases: o sentimento de perseguição. Cada nova batalha envolvendo Moraes passou a funcionar como combustível para uma militância que precisava permanecer mobilizada. Flávio herdou o sobrenome, o eleitorado e a estrutura política do pai. Agora pode estar herdando também a reação aos excessos atribuídos ao ministro. Aquilo que parecia uma candidatura destinada apenas a marcar posição transformou-se numa alternativa competitiva de poder.
O que diferencia o remédio do veneno é a dose. O Brasil precisava de instituições fortes diante dos ataques à democracia, mas instituições fortes não são sinônimo de autoridades sem limites. O Supremo deveria funcionar como elemento de estabilidade, jamais como protagonista permanente da polarização nacional. Moraes venceu muitas batalhas contra o bolsonarismo, mas talvez tenha perdido a mais importante: impedir que suas decisões fossem transformadas em capital eleitoral pelos próprios adversários. Jair Bolsonaro saiu da urna, mas o bolsonarismo permaneceu. E, se Flávio Bolsonaro chegar competitivo à reta final da eleição presidencial, haverá uma pergunta inevitável: quanto dessa força nasceu das decisões tomadas para combater seu próprio campo político? Alexandre de Moraes tentou ser o antídoto contra Bolsonaro. Pelo excesso da dose, pode ter terminado como um dos ingredientes de sua sobrevivência.

Por Augusto César