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POLíTICA

Falulácias: Os Ataques de Lula a Ciro no Nordeste e o Desgaste do PT

Augusto César Por Augusto César
Falulácias: Os Ataques de Lula a Ciro no Nordeste e o Desgaste do PT

Por Christian Velloso Kuhn

No dia 01 de abril, conhecido como o dia da mentira, o presidente Lula resolveu falar, bem e mal, de Ciro Gomes. Os mísseis verborrágicos do presidente contra seu desafeto ocorrem no mesmo dia em que foi divulgada pesquisa do Instituto Paraná Pesquisas, que aponta o político cearense consistentemente bem à frente do concorrente petista, Elmano de Freitas, atual governador daquele estado. Enquanto o tucano aparece com 46,6%, o petista figura com 33,9%. Como a margem de erro da pesquisa é de 2,6%, Ciro está no limiar de poder levar essa eleição ainda no segundo turno. 

As contraditórias acusações de Lula, dadas em entrevista à TV Cidade, do Ceará, sugerem que Ciro é “destemperado”, que “às vezes, arruma confusão”, “fala para pensar, não pensa para falar”. Ao mesmo tempo, Lula afirmou ter “muito respeito” e que Ciro ainda “pode prestar bons serviços ao Brasil”. Sobre a saída de Ciro do PDT para o PSDB, o presidente afirmou: “O partido para mim é a minha referência. O Ciro acha que a referência é ele”. Finalizou ressaltando que guarda boas recordações e que nunca o viram falar mal de Ciro. 

Como diria Ciro Gomes, “repare bem”, os disparos acima de Lula são todos contra a pessoa de Ciro. Seu suposto destempero, a pecha de arruaceiro, a acusação de não pensar antes de falar e o rótulo de egocêntrico. As incongruências tornam-se nítidas quando Lula faz essas declarações acusatórias e finaliza dizendo que nunca ninguém o “viu falar mal do Ciro”. Também é questionável até que ponto o PT seja uma referência para Lula e não o contrário. Independentemente da procedência das acusações, tratam-se de argumentos ad hominem, e por isso, falaciosos. Na prática, tratam-se de sofismas motivados por interesses eleitorais. 

O Cenário Econômico e o Desempenho Regional  

A principal motivação do presidente Lula para bombardear Ciro parece ser meramente eleitoreira. O PT não vem aparecendo bem nas pesquisas para governador nos estados do Nordeste, onde historicamente o partido domina as eleições presidenciais. Na Bahia e no Ceará, estados onde o petista teve seus melhores resultados no segundo turno (72% e 70%, respectivamente), os atuais governadores enfrentam grandes desafios para a reeleição¹. Vencer nesses estados é estratégico, dado que o nível de votação de Lula tende a ser inferior em 2026.

É preciso verificar a queda de rendimento do PT nos últimos quatro anos. Desde o início do atual mandato, o número de beneficiários do Bolsa Família caiu de 54,3 milhões em junho de 2023 para 48,9 milhões em março de 2026, uma queda de 10,0% (dados do MDS). No Nordeste, eram 22,0 milhões no último dado disponível, ante 24,2 milhões em junho de 2023, uma redução de 9,5%. Embora a taxa de desemprego tenha reduzido de 7,9% (2022) para 5,1% (2025), e o rendimento médio real tenha crescido 13% no país², outros indicadores são desfavoráveis.

A inadimplência atingiu níveis recordes, com 82 milhões de brasileiros endividados — uma elevação de 38% nos últimos 10 anos. Desse contingente, quase metade recebe até um salário mínimo e quase 80% ganha até dois salários mínimos. Já o valor total das dívidas mais que dobrou (176%) em igual período. Atualmente, quase 1/3 da renda das famílias é comprometida com o pagamento de dívidas. O governo foi malsucedido em sua política (Desenrola), que se mostrou uma cópia ineficiente do programa defendido por Ciro Gomes nas últimas eleições.

A Aprovação Popular e os Novos Candidatos

Segundo a última pesquisa da Quaest, 51% dos pesquisados desaprovam o governo Lula. O crescimento da insatisfação entre os independentes subiu de 52% para 57% entre novembro de 2025 e março de 2026. Além disso, 47% dos entrevistados acreditam que este governo está abaixo dos dois primeiros mandatos de Lula. No Nordeste, a aprovação caiu de 65% para 57% entre os beneficiários do Bolsa Família desde o ano passado. Ademais, para 48% dos entrevistados, a economia piorou nos últimos 12 meses, índice abaixo apenas de março do ano passado (56%).

Com relação à inflação, a situação parece melhor nos últimos 12 meses, embora a maioria permaneça insatisfeita. Cerca de 58% aponta que os preços dos alimentos subiram nos mercados nos últimos 12 meses, percentual que vem oscilando muito pouco desde novembro de 2025, e que chegou a 88% no mesmo período de 2025. Quanto ao poder de compra, 64% entende estar menor do que há um ano, tendo chegado a 81% em março do ano anterior. Uma pergunta relevante feita pela pesquisa Quaest se refere à isenção de pagamento do IRPF. Em outubro de 2025, havia uma expectativa de 61% de serem beneficiados com essa medida, ao passo que apenas 31% revelaram terem sido impactados positivamente em março desse ano. 

Talvez por isso a economia seja um dos assuntos que menos preocupam os eleitores (10%). A violência segue sendo o tema que causa maior apreensão (27%), seguido da corrupção (20%). A boa notícia para o governo é que essa preocupação com a segurança vem diminuindo (chegou a 38% em novembro). A má notícia é que a corrupção chegou ao ápice nos últimos 12 meses (era 13% em maio). É uma má notícia porque as acusações relativas ao INSS e Banco Master envolvem o governo direta ou indiretamente. 

No que tange às intenções de votos no primeiro turno, o presidente Lula oscila entre 36% e 39% nos sete cenários testados, enquanto Flávio Bolsonaro varia mais (de 30 a 35%). Em dois cenários, a diferença entre ambos está dentro da margem de erro da pesquisa (2%). Naqueles em que Ronaldo Caiado (PSD) é candidato, anunciado oficialmente pelo seu partido essa semana, Lula e Flávio aparecem com 39% contra 32% (com Romeu Zema do Novo) e 36% contra 34% (sem Romeu Zema), respectivamente. Já Caiado figura com 4% nos dois cenários.

O posicionamento dos eleitores com relação aos atributos de Lula e Flávio Bolsonaro é bastante revelador. A maioria acha Lula um líder forte (51%), acima de Flávio (42%), algo de se esperar, haja vista o petista estar no seu terceiro mandato presidencial e liderar seu partido há décadas. Os entrevistados se dividem, entretanto, quando questionados se o acham radical (46% concordam e discordam), tanto quanto o bolsonarista (45%). Em outras afirmações (é sensível, tem princípios, se preocupa com as pessoas e é competente), a minoria concorda (41 a 45% dos entrevistados), mas em percentuais maiores do que de seu algoz do PL (varia de 32% a 41%). Nas demais, poucos concordam que Lula seja sincero e honesto (27% e 23%, respectivamente), índices próximos de Flávio (25% e 26%, respectivamente).  

Finalmente, a maioria dos eleitores (59%) pensa que Lula não merece se reeleger, o maior índice desde dezembro, que já chegou a ser maior em maio do ano passado (63%). Também acha que o país está indo na direção errada (58%). Já o medo de Lula continuar ou a família Bolsonaro voltar é equivalente (43% e 42%, respectivamente). Ademais, esse temor em relação a Lula vem crescendo (tendo sido de 39% em agosto), enquanto o de alguém do clã de Bolsonaro está diminuindo nos últimos 12 meses (chegou a 49% em setembro), chegando ao menor patamar nesse período. 

Conclusão: Entre a Inércia e a Reação

Em suma, a cortina de fumaça do “encantador de serpentes” petista é insuficiente para esconder o cenário preocupante para sua reeleição para um quarto mandato. Sua votação pende para a queda na principal região eleitoral do PT e a maioria dos eleitores do país discorda da direção do país, duvida do que ele diz e de sua honestidade, o rejeita e, por isso, é contra sua reeleição. O medo de Bolsonaro e seu clã, tônica das eleições passadas, já não assombra como dantes. A margem de votos contra Flávio, cujo (de)mérito é ser filho de Jair Bolsonaro, é tão estreita quanto no segundo turno de 2022, e ao contrário daquelas eleições, que recebeu o apoio do PDT e de Simone Tebet, todos os demais pré-candidatos estão mais alinhados com a direita (maioria radical) e muito provavelmente se unirão contra Lula se houver segundo turno. 

Desse modo, não será com discursos sofistas e apelações contra adversários que Lula provará capacidade para reverter essa situação e resolver as mazelas resultantes de políticas malsucedidas ou sem efeito (como o programa Desenrola e a isenção do IRPF) e suas omissões, como a pouca efetividade do Mais Indústria Brasil (bem desenhado por sinal), a não reversão de reformas previdenciária e trabalhista, a falta de enfrentamento das denúncias de corrupção (precatórios, INSS e Banco Master), a ausência de uma política de segurança pública e a rendição ao rentismo. Nesse último, as BET´s foram taxadas apenas para fins arrecadatórios, os penduricalhos de servidores públicos do Judiciário estão sendo limitados pelo STF e a troca de presidente e diretoria do Banco Central nada mudou a política de altas taxas de juros, beneficiando fundamentalmente rentistas detentores de títulos públicos e a lucratividade dos bancos. Ano passado, enquanto as pessoas vem padecendo para honrarem suas dívidas e inadimplementos, os três grandes bancos privados do país (Itaú, Bradesco e Santander) acumularam R$ 87 bilhões de lucro, uma elevação de 16,4% em relação a 2024 (R$ 77 bilhões). 

Um dos graves defeitos que Lula demonstrou nesse seu mandato é a pouca iniciativa. Diferentemente de seus dois primeiros mandatos, quando apresentou programas como Bolsa Família, PROUNI e PAC (programa válido, mas sem tanto resultado), e segurou os efeitos da crise financeira global de 2008, em seu atual governo, agiu reativamente (ou nem isso). Como exemplos, são os casos do tarifaço imposto por Trump, da lei antifacção proposta pelo Congresso, das denúncias do INSS, dos penduricalhos de juízes e da revisão do programa Desenrola Brasil. A discussão sobre soberania só veio à tona por causa da política tarifária errática de Trump. O governo apaga incêndios, não evita acontecê-los. Atua a reboque dos fatos. Resta ver como Lula “desenrola” essa situação, sem “enrolar” ainda mais a população. A maioria dos eleitores sinaliza não tolerar mais a inação, a inépcia e a carência de um projeto para o país.

Christian Velloso Kuhn é economista e professor universitário. 

Notas

¹ Além do cenário desfavorável para Elmano de Freitas no Ceará, no estado da Bahia, Jerônimo Rodrigues aparecia com 31%, ante 48% de ACM Neto (União Brasil) em 06 de março.

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