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GERAL

Entre o legado e o risco: o dilema estratégico de Lula em 2026

Augusto César Por Augusto César
Entre o legado e o risco: o dilema estratégico de Lula em 2026

Foto: Divulgação

Edmar Lyra – A fotografia da aprovação presidencial em anos eleitorais revela um padrão difícil de ignorar. Governos que chegaram competitivos à disputa — como os de Fernando Henrique Cardoso em 1998 ou Luiz Inácio Lula da Silva em 2006 — operavam acima da faixa dos 40%, muitas vezes com folga. Já administrações que entraram na corrida abaixo dos 35% enfrentaram dificuldades evidentes ou sucumbiram, como ocorreu no fim do segundo mandato de FHC, em 2002. Nesse contexto, o atual patamar de Lula, girando na casa dos 20% a 25% de ótimo/bom, o posiciona fora da zona historicamente segura para uma reeleição, exigindo uma recuperação significativa em um ambiente político mais fragmentado e menos tolerante a viradas bruscas.

Diante desse cenário, ganha força nos bastidores a hipótese de Lula não disputar um quarto mandato, não por incapacidade eleitoral absoluta, mas por cálculo estratégico. Preservar o legado pode ser mais valioso do que arriscar uma derrota. Ao longo da história recente, líderes que insistiram além do ponto acabaram reduzindo seu capital político — e, no caso de Lula, o risco é ainda maior pelo peso simbólico que carrega. Uma eventual derrota para um nome competitivo da oposição, como Flávio Bolsonaro, teria impacto profundo não apenas no resultado eleitoral imediato, mas na capacidade de reorganização do campo progressista nos anos seguintes.

Nesse desenho, a construção de um sucessor passa a ser não apenas uma alternativa, mas uma necessidade estratégica. Dois nomes aparecem com mais nitidez: Camilo Santana e Fernando Haddad. O primeiro, com perfil mais discreto e forte base no Nordeste, poderia representar continuidade com menor rejeição. O segundo, mais conhecido nacionalmente, já testado eleitoralmente, carrega tanto a vantagem da experiência quanto o peso de rejeições acumuladas. Nenhum deles, hoje, partiria como favorito claro em um cenário nacional adverso, mas ambos poderiam cumprir um papel crucial: iniciar a transição para o pós-Lula, reorganizando o campo político e preparando uma nova liderança para ciclos futuros.

Mesmo uma eventual derrota desse sucessor não seria necessariamente o pior dos cenários — desde que bem administrada. A história política mostra que projetos longevos raramente se sustentam apenas em vitórias imediatas; eles dependem de renovação, adaptação e construção de novas lideranças. Ao optar por não disputar, Lula poderia transformar uma eleição potencialmente defensiva em um movimento de longo prazo, reposicionando seu campo político para além de sua própria figura. O risco maior, paradoxalmente, não está em perder com um herdeiro político, mas em perder pessoalmente, comprimindo o espaço de reconstrução e tornando mais difícil a reorganização do PT e de seus aliados em um cenário pós-Lula.

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