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OPINIãO

Raquel Lyra entra em campo e viabiliza retomada da Transnordestina

Augusto César Por Augusto César
Raquel Lyra entra em campo e viabiliza retomada da Transnordestina

Foto: Divulgação

 A retomada das obras da Ferrovia Transnordestina em Pernambuco recoloca o Estado no centro de um dos mais importantes projetos de infraestrutura do Nordeste. O anúncio feito pela governadora Raquel Lyra sobre a assinatura, em Brasília, do contrato para reinício de 73 quilômetros da ferrovia representa mais do que uma agenda administrativa: simboliza a tentativa de resgatar uma obra que, ao longo de quase vinte anos, se transformou em sinônimo de atrasos, paralisações e disputas políticas.

Concebida ainda em 2006, durante o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Transnordestina nasceu com uma proposta ambiciosa: integrar o interior produtivo do Nordeste aos portos de Suape, em Pernambuco, e Pecém, no Ceará. A expectativa inicial era de que a ferrovia fosse concluída em 2010, impulsionando o escoamento de grãos, minério, gesso e combustíveis. O projeto, no entanto, mergulhou em sucessivos problemas financeiros e operacionais. Custos explodiram, cronogramas foram abandonados e parte significativa das obras acabou paralisada.

Pernambuco sofreu diretamente os efeitos desse processo. Enquanto o trecho cearense continuou recebendo investimentos, o ramal entre Salgueiro e Suape perdeu prioridade ao longo dos últimos anos. Em 2022, a concessionária responsável pela obra devolveu ao Governo Federal a responsabilidade sobre o trecho pernambucano, alegando inviabilidade econômica. Na prática, o gesto foi interpretado no Estado como uma espécie de rebaixamento logístico de Pernambuco dentro do projeto nordestino.

A retomada anunciada agora busca mudar essa percepção. O trecho de 73 quilômetros entre Custódia e Arcoverde é visto como estratégico para recolocar Pernambuco na rota ferroviária nacional. E não apenas simbolicamente. A Transnordestina pode representar uma transformação econômica concreta para o interior do Estado, especialmente para o Sertão. A ferrovia tem potencial para reduzir custos logísticos, ampliar a competitividade do agronegócio, fortalecer o polo gesseiro do Araripe e aumentar a capacidade operacional do Complexo Industrial Portuário de Suape.

Em um Estado historicamente marcado pela concentração econômica na Região Metropolitana do Recife, a ferrovia também carrega um forte componente de interiorização do desenvolvimento. Não por acaso, o tema mobiliza diferentes setores empresariais e políticos há anos. Existe uma compreensão quase consensual de que Pernambuco dificilmente alcançará um novo ciclo robusto de crescimento sem melhorar sua infraestrutura logística.

Politicamente, o movimento também possui peso relevante. Ao assumir protagonismo na defesa da Transnordestina, Raquel Lyra tenta associar sua gestão à retomada de grandes obras estruturadoras. Em um cenário de forte disputa política regional, garantir avanços concretos em um projeto historicamente aguardado fortalece o discurso de capacidade de articulação institucional junto ao Governo Federal.

Naturalmente, ainda existe cautela. A Transnordestina já atravessou promessas frustradas demais para gerar euforia automática. O desafio agora será transformar anúncios em execução contínua, evitando que a ferrovia volte ao ciclo de interrupções que marcou sua trajetória nas últimas duas décadas.

Ainda assim, a assinatura desta terça-feira possui um valor político e econômico evidente: ela sinaliza que Pernambuco não pretende aceitar ficar fora dos grandes corredores logísticos do futuro nordestino.