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A Câmara dos EUA publicou um relatório classificando o Brasil como peça de uma rede global de espionagem militar chinesa. O governo Lula fez silêncio. Você precisa saber o que está em jogo.

Augusto César Por Augusto César
A Câmara dos EUA publicou um relatório classificando o Brasil como peça de uma rede global de espionagem militar chinesa. O governo Lula fez silêncio. Você precisa saber o que está em jogo.

AVANÇA BRASIL – O documento se chama Pulling Latin America into China’s Orbit e foi produzido pelo Comitê Especial da Câmara dos Representantes dos EUA sobre o Partido Comunista Chinês. Data: 26 de fevereiro de 2026. Não é especulação. É um relatório oficial do Congresso americano, com fontes primárias, imagens de satélite e documentos governamentais chineses.

A tese central é esta: a China construiu, ao longo de décadas, uma rede de 11 instalações espaciais na América Latina — apresentadas como projetos científicos ou comerciais — que formam, na prática, uma infraestrutura militar de duplo uso integrada ao Exército de Libertação Popular (PLA). O Brasil aparece nominalmente como hospedeiro de duas dessas instalações.

Por que a América Latina?

Porque a China tem um problema geométrico. Estações terrestres só se comunicam com satélites quando estes estão na linha de visão direta. Sem bases no hemisfério ocidental, o PLA teria pontos cegos enormes nas órbitas de seus satélites militares — incluindo os de reconhecimento e os de guia terminal para mísseis hipersônicos e ICBMs. A América Latina resolve esse problema. O Brasil, especificamente, resolve o ponto cego equatorial.

O que está no Brasil

Duas instalações são detalhadas no relatório:

A primeira é a Tucano Ground Station, na Bahia — fruto de um acordo de 2020 entre a startup brasileira Ayla Nanosatellites e a chinesa Beijing Tianlian Space Technology, empresa vinculada à China Academy of Space Technology e à China Aerospace Science and Technology Corporation, ambas com ligações diretas ao PLA. O acordo prevê armazenamento e troca de dados operacionais entre as redes de antenas das duas empresas. O relatório aponta que esse arranjo pode, na prática, aprimorar precisão de rastreamento, consciência situacional espacial e resiliência de comando em ativos civis e militares.

O detalhe que mais deveria incomodar qualquer brasileiro: a Ayla assinou também um memorando com o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial da Força Aérea Brasileira, incluindo treinamento de militares em simulação orbital e uso de antenas da FAB como estrutura de backup da estação de Tucano. O comitê americano conclui que esse arranjo fornece à China um canal para observar e influenciar a doutrina espacial militar brasileira — enquanto estabelece presença permanente numa região que os EUA consideram vital para sua segurança nacional.

A segunda instalação é o China-Brazil Joint Laboratory for Radio Astronomy Technology, na Serra do Urubu, na Paraíba — formalizado em 2025 entre o CESTNCRI (20º Instituto de Pesquisa do CETC, profundamente integrado à base industrial de defesa da China) e as universidades federais da Paraíba e de Campina Grande. O projeto ancora-se no telescópio BINGO, atualmente em construção em São Paulo. O relatório aponta que os algoritmos de filtragem de interferência de radiofrequência do sistema — usados pelos astrônomos para “limpar” o sinal do cosmos — poderiam ser capazes de interceptar, classificar e isolar pulsos de radar militares, telemetria de satélites e atividade de guerra eletrônica com extrema sensibilidade.

O que o relatório revela sobre a doutrina chinesa

A China opera sob Military-Civil Fusion (MCF): empresas aeroespaciais são legalmente obrigadas a incluir estruturas do PCCh com autoridade de supervisão. A distinção civil/militar simplesmente não existe no direito chinês da forma que existe no ocidental. Toda cooperação espacial com entidades chinesas é, por definição legal, potencialmente acessível ao PLA.

O objetivo estratégico é a Space Domain Awareness (SDA): detectar, rastrear e caracterizar todos os objetos em órbita — satélites adversários, detritos, sistemas de armas — para alimentar o que o PLA chama de “guerra informacionalizada”. O órgão que centraliza esses dados é a PLA Base 37, que recebe informações de toda a rede global, inclusive da América Latina.

O que outros países fizeram

Argentina encerrou o projeto CART de radiotelescópio chinês em 2025, sob pressão da administração Trump e do governo Milei. Chile cancelou o data center sino-chileno no Atacama após o embaixador americano levantar formalmente o tema. Suécia encerrou contratos de compartilhamento de antenas com a China em 2020, após sua agência de defesa concluir que o acesso poderia ser usado para inteligência militar.

O Brasil não fez nada.

O silêncio que fala

O relatório foi publicado em fevereiro. A imprensa brasileira só o repercutiu em junho — e de forma fragmentada. O governo Lula não emitiu nota. A FAB não se pronunciou. O Itamaraty ficou em silêncio.

Enquanto isso, o mesmo Congresso americano cita decisões do ministro Toffoli como justificativa para tarifar o Brasil. A percepção em Washington não é a de um aliado confiável — é a de um país cuja soberania foi progressivamente alugada a Pequim, com ou sem o conhecimento de suas próprias instituições militares.

A pergunta que ninguém no governo quer responder é simples: a FAB sabia que as antenas que cedeu à Ayla podiam servir de nó de uma rede de espionagem militar chinesa? E se sabia, quem autorizou?

Soberania não se proclama em discurso. Ela se defende — ou se perde em silêncio.

Leia o relatório completo: https://chinaselectcommittee.house.gov/sites/evo

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