Nesta madrugada, assisti a “Silêncio”, uma das obras mais profundas e viscerais de Martin Scorsese. É o tipo de filme do qual você sai carregando perguntas, não respostas. Longe de ser uma experiência confortável ou aquele entretenimento eletrizante envolvendo mafiosos que o diretor domina como ninguém, o longa é um mergulho doloroso na essência da fé.
A trama acompanha a jornada dos jesuítas portugueses vividos por Andrew Garfield e Adam Driver, que viajam ao Japão do século XVII em busca de seu mentor desaparecido, interpretado por Liam Neeson, sob a sombra de uma violenta perseguição religiosa. Embora a premissa dos missionários em terra hostil remeta à atmosfera de “A Missão” (recomendo a quem não assistiu), a obra de Scorsese afasta-se do épico político para se fechar em um drama íntimo, psicológico e de contornos muito mais solitários.
Durante boa parte da projeção, me peguei admirando a coragem daqueles missionários. Atravessar oceanos, enfrentar torturas e arriscar a própria pele por um ideal exige uma têmpera espiritual que o mundo moderno, em sua pressa cínica, muitas vezes já não compreende. Mas, à medida que a narrativa avançava, a admiração cedeu espaço à inquietação. O sofrimento na tela parecia não ter fim. A cada nova cena de provação, eu esperava que Deus dissesse alguma coisa. Uma frase, um sinal, um milagre sutil. Qualquer gesto. Mas o que vinha era justamente o que o título prometia: o silêncio.
Talvez resida aí a grande genialidade do filme. Scorsese não oferece saídas fáceis, nem distribui heróis e vilões em compartimentos convenientes. Os inquisidores japoneses não são monstros desprovidos de lógica; os padres não são santos impecáveis. Todos carregam razões, dúvidas, medos profundos e contradições humanas.
Em determinado momento, percebi que a história já não falava sobre o Japão feudal. Falava sobre todos nós. Coincidência ou não, tenho acompanhando essa experiência visual com a leitura de “Diálogos sobre a Fé”, o livro de entrevistas entre o próprio Scorsese e o Padre Antonio Spadaro. Nele, fica claro como essa busca inquieta acompanha o cineasta por toda a vida. Na obra, eles discutem como a dúvida não é o oposto da fé, mas sim parte constituinte dela.
O filme é a tradução perfeita dessa premissa. É sobre os dias em que rezamos e a sensação é de que ninguém está ouvindo. Sobre as ocasiões em que tentamos fazer a coisa certa e, ainda assim, somos derrotados. Sobre os momentos em que a fé não se parece com uma montanha iluminada, mas com uma longa caminhada na neblina.
Quando os créditos finais do filme surgiram, não veio a euforia quase catártica que costuma acompanhar as canções dos Rolling Stones — aquela marca registrada, a quase assinatura que o diretor deixa em seus clássicos urbanos. O que me tomou foi algo muito diferente: um peso sereno. Como quem encerra uma conversa densa e necessária, e precisa permanecer alguns minutos em absoluto recolhimento antes de conseguir voltar a falar.
Talvez porque, no fundo, todos nós já tenhamos olhado para o céu em algum instante da vida à espera de um eco. E talvez porque todos nós saibamos, com uma precisão dolorosa, exatamente como é quando a única resposta que recebemos é o silêncio.

Por Augusto César