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EDMAR LYRA – A nova rodada da pesquisa Quaest sobre a corrida presidencial de 2026 oferece um retrato relevante do momento político brasileiro: a manutenção da liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas em um cenário de forte polarização e com sinais de fragmentação no campo oposicionista. Lula aparece com 39% das intenções de voto no primeiro turno, repetindo o desempenho registrado em maio, enquanto o senador Flávio Bolsonaro recua de 33% para 29%. Embora a diferença entre ambos tenha aumentado de seis para dez pontos percentuais, os números sugerem mais estabilidade do que uma mudança estrutural na disputa. Isso porque o levantamento ampliou o número de pré-candidatos testados, o que tende a pulverizar parte do eleitorado oposicionista. Ainda assim, o dado reforça que Lula preserva uma base consolidada, mesmo governando sob índices de aprovação e desaprovação praticamente empatados.
O aspecto mais significativo da pesquisa talvez esteja justamente na relação entre intenção de voto e avaliação do governo. Apesar de 48% desaprovarem a gestão petista e 47% a aprovarem, Lula continua liderando com margem confortável no primeiro turno e vence todos os cenários de segundo turno apresentados. Historicamente, eleições presidenciais brasileiras nem sempre reproduzem de forma automática a avaliação administrativa do governo de ocasião. Muitas vezes, a força eleitoral de um candidato está associada à identidade política construída ao longo do tempo, à capacidade de mobilização e à comparação com seus adversários. Nesse sentido, Lula demonstra continuar sendo o principal polo de atração do eleitorado de centro-esquerda e de parte significativa dos setores populares, preservando competitividade mesmo diante de um ambiente econômico e político desafiador.
Para Flávio Bolsonaro, os números revelam um quadro ambíguo. Por um lado, o senador mantém praticamente intacta a herança eleitoral do bolsonarismo, concentrando 94% dos eleitores identificados com esse campo político, segundo a análise da própria Quaest. Por outro, encontra dificuldades para ampliar sua penetração entre segmentos da direita não bolsonarista e do centro. O levantamento foi realizado após episódios que colocaram seu nome no centro do debate político, como a divulgação de diálogos envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e sua viagem aos Estados Unidos para encontros políticos. Embora apenas 12% dos entrevistados afirmem que o caso Vorcaro reduz sua disposição de votar no senador, a pesquisa sugere que a principal barreira para seu crescimento não está necessariamente em episódios conjunturais, mas na dificuldade de expandir sua coalizão eleitoral para além da base já fidelizada.
Outro dado relevante é a ausência, ao menos por enquanto, de uma alternativa competitiva capaz de romper a polarização. Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e Aécio Neves aparecem com índices modestos e insuficientes para ameaçar os dois líderes. Ainda assim, a existência de 10% de indecisos e o fato de 36% dos entrevistados declararem que podem mudar de voto até a eleição mostram que a disputa permanece aberta. A mais de três meses do pleito, a vantagem de Lula é consistente, mas não definitiva. A pesquisa indica que o presidente parte de uma posição mais confortável, enquanto Flávio Bolsonaro mantém capacidade de competição. O desafio dos próximos meses será verificar se a campanha seguirá concentrada na atual polarização ou se surgirá espaço para uma candidatura capaz de reorganizar o eleitorado que hoje não se sente plenamente representado por nenhum dos dois polos.

Por Augusto César