Foto: Kent Nishimura/Bloomberg
Edmar Lyra – Durante boa parte da última década, consolidou-se a percepção de que a chamada “onda rosa” voltava a dominar a América Latina. A eleição de líderes de esquerda em países como Brasil, Chile, Colômbia e México parecia apontar para um novo ciclo político regional. Mas os acontecimentos recentes mostram que o cenário mudou de forma significativa. A vitória do conservador Abelardo de la Espriella na Colômbia — encerrando a experiência da esquerda de Gustavo Petro — e a virtual eleição de Keiko Fujimori no Peru reforçam um movimento cada vez mais evidente: o crescimento da direita e da centro-direita em praticamente todo o continente.
Hoje, a Argentina é governada por Javier Milei, o Chile elegeu José Antonio Kast, o Equador reelegeu Daniel Noboa, a Bolívia rompeu um longo ciclo de predominância da esquerda, e agora Colômbia e Peru caminham na mesma direção. O denominador comum dessas vitórias é a combinação de discursos voltados para segurança pública, combate ao crime organizado, redução do tamanho do Estado e críticas às políticas econômicas intervencionistas.
No Peru, Keiko Fujimori aparece como vencedora virtual após uma disputa apertadíssima contra o candidato de esquerda Roberto Sánchez. Sua provável chegada ao poder representa não apenas a volta do fujimorismo ao Palácio de Governo, mas também mais um capítulo da guinada conservadora regional.
A eleição colombiana talvez seja ainda mais simbólica. A vitória de Abelardo de la Espriella ocorre justamente no país que, em 2022, havia promovido uma das maiores rupturas políticas de sua história ao eleger o primeiro presidente de esquerda. Quatro anos depois, o eleitorado decidiu mudar de rumo, impulsionado principalmente pelas preocupações com segurança e desempenho econômico.
Nesse contexto, o Brasil passa a ocupar uma posição estratégica. A eleição presidencial de 2026 ocorrerá em uma América Latina muito diferente daquela que existia quando Lula venceu em 2022. Se a tendência observada em Argentina, Chile, Peru e Colômbia se mantiver, a disputa brasileira poderá ser influenciada por um ambiente regional cada vez mais favorável a candidaturas de direita, transformando o país no próximo grande capítulo dessa reorganização política continental.

Por Augusto César