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OPINIãO

Michelle sai de cena e deixa Flávio diante do maior teste da campanha

Augusto César Por Augusto César
Michelle sai de cena e deixa Flávio diante do maior teste da campanha

Foto: Divulgação

EDMAR LYRA – A decisão de Michelle Bolsonaro de deixar a presidência do PL Mulher e, na prática, retirar-se da disputa pelo Senado no Distrito Federal representa muito mais do que uma mudança de agenda pessoal. É um movimento que altera o equilíbrio interno do bolsonarismo em um momento decisivo da sucessão presidencial. Oficialmente, a ex-primeira-dama atribuiu sua saída à necessidade de dedicar-se aos cuidados do ex-presidente Jair Bolsonaro e da filha do casal. Nos bastidores, porém, a sequência dos acontecimentos torna inevitável relacionar a decisão ao desgaste provocado pela crise pública com o senador Flávio Bolsonaro.

Michelle chegava ao processo eleitoral em posição privilegiada. Seu nome figurava entre os mais competitivos para o Senado pelo Distrito Federal, agregando o eleitorado conservador, o segmento evangélico e parte significativa das mulheres identificadas com o legado do governo Bolsonaro. Sua candidatura era considerada praticamente natural dentro da estratégia do PL para maximizar a votação na capital federal.

Ao abrir mão dessa construção, Michelle produz um efeito político imediato: o partido perde uma de suas principais vitrines eleitorais em uma unidade da Federação considerada estratégica. Mas o impacto mais profundo recai sobre Flávio Bolsonaro.

Desde o início da pré-campanha presidencial, Flávio trabalhava para transmitir a imagem de unidade familiar, elemento indispensável para preservar o capital político construído pelo pai ao longo dos últimos anos. A crise pública com Michelle rompeu exatamente essa narrativa. Quando o conflito deixa de ser uma divergência interna e passa a ocupar o centro do debate político, o adversário deixa de estar do outro lado e passa a estar dentro de casa.

Ainda que Michelle não tenha anunciado um rompimento definitivo com o projeto político da família, sua saída da linha de frente enfraquece um dos principais ativos eleitorais da campanha: sua enorme capacidade de mobilização junto ao eleitorado feminino. Desde 2022, ela se consolidou como uma das figuras mais populares do campo conservador, desempenhando um papel que nenhum outro dirigente do PL conseguiu reproduzir.

A eventual ausência de Michelle na campanha também cria um problema simbólico. O eleitor tende a interpretar gestos antes mesmo de ouvir discursos. Quando uma liderança abandona cargos partidários e deixa em aberto seu futuro eleitoral logo após uma crise familiar, a percepção de instabilidade torna-se inevitável, ainda que a justificativa oficial seja de ordem pessoal.

Para Flávio Bolsonaro, o desafio agora vai muito além da disputa eleitoral. Será necessário reconstruir a confiança dentro do próprio grupo político e convencer aliados de que o episódio está superado. Campanhas presidenciais exigem coesão, disciplina e capacidade de transmitir segurança. A direita sempre encontrou na imagem de Jair Bolsonaro como líder incontestável seu principal elemento de unificação. Com o ex-presidente afastado da linha de frente, qualquer fissura entre seus herdeiros políticos ganha proporções muito maiores.

No fim das contas, Michelle talvez continue sendo uma das figuras mais influentes do bolsonarismo, mesmo fora das urnas. Mas sua retirada expõe que, em política, às vezes a ausência produz mais efeitos do que a presença. E quem mais sente esse vazio, neste momento, é justamente Flávio Bolsonaro.