A possibilidade de tropas especiais dos Estados Unidos atuarem no Brasil para combater organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) passou a ganhar força no debate internacional depois que o governo norte-americano classificou as duas maiores facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.
*por Júlio César Prado
Entretanto, é importante fazer uma distinção: não há, até o momento, confirmação pública de que a Delta Force tenha recebido ordem para entrar no Brasil. O que existe é um novo cenário de segurança envolvendo Brasil e Estados Unidos, depois da decisão de Washington de colocar PCC e CV na lista de organizações terroristas estrangeiras. A medida entrou em vigor em junho de 2026.
O próprio Itamaraty alertou para a possibilidade de utilização de força militar americana em território brasileiro como consequência desse novo enquadramento. Em documentos enviados ao Congresso, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que existe risco de ações militares dos Estados Unidos no Brasil.
O QUE É A DELTA FORCE?
A Delta Force, oficialmente conhecida como 1st Special Forces Operational Detachment-Delta (1st SFOD-D), é uma das unidades de operações especiais mais secretas e especializadas das Forças Armadas dos Estados Unidos.
Sua principal especialidade é o contraterrorismo, mas suas missões podem envolver captura ou eliminação de alvos de alto valor, resgate de reféns, operações de ação direta, reconhecimento especial e outras missões extremamente sensíveis.
Por causa do caráter secreto da unidade, muitas das suas operações não são divulgadas integralmente pelo governo americano. A unidade está associada ao Comando de Operações Especiais dos Estados Unidos e é considerada uma força de elite de primeiro nível.
Se uma eventual operação americana contra organizações criminosas brasileiras chegasse ao ponto de exigir uma unidade de operações especiais, a Delta Force estaria entre as forças que poderiam ser consideradas — embora isso seja uma hipótese, e não uma informação confirmada.
ONDE A DELTA FORCE JÁ ATUOU?
Ao longo de sua história, a Delta Force esteve relacionada a algumas das operações militares e antiterroristas mais conhecidas dos Estados Unidos.
PANAMÁ: Durante a intervenção americana no Panamá, a unidade participou de operações destinadas à captura do general Manuel Noriega. Também esteve envolvida na operação de resgate do americano Kurt Muse, mantido preso em uma penitenciária na Cidade do Panamá.
SOMÁLIA: A unidade participou das operações americanas na Somália e ficou associada à Batalha de Mogadíscio, em 1993, episódio posteriormente retratado no filme Black Hawk Down.
IRAQUE: Depois dos ataques de 11 de setembro, forças especiais americanas passaram a atuar intensamente no Afeganistão e, posteriormente, no Iraque. A Delta Force participou de operações destinadas a localizar e capturar integrantes de alto escalão da antiga liderança iraquiana. Entre os alvos mais importantes esteve Saddam Hussein.
AFEGANISTÃO: Durante a guerra contra o terrorismo, unidades especiais americanas realizaram inúmeras operações contra a Al-Qaeda e posteriormente contra o Talibã e outras organizações extremistas. A Delta Force esteve entre as unidades empregadas em missões altamente sensíveis de captura e eliminação de alvos considerados de grande importância para a segurança americana.
COMBATE AO ESTADO ISLÂMICO: A unidade também esteve relacionada à campanha americana contra o Estado Islâmico. Operações de forças especiais foram utilizadas para localizar e eliminar importantes líderes da organização terrorista.
VENEZUELA: Em 2026, a Delta Force voltou ao centro das atenções internacionais depois de relatos de que integrantes da unidade teriam participado da operação americana que capturou Nicolás Maduro em Caracas. A participação específica da Delta Force não foi oficialmente confirmada pelo Pentágono, mas veículos de imprensa relataram que a unidade teria desempenhado papel central na operação.
E O COMBATE AO TRÁFICO DE DROGAS?
A atuação americana contra o narcotráfico na América Latina é muito mais ampla do que a Delta Force.
Na Colômbia, por exemplo, os Estados Unidos mantêm há décadas cooperação com forças policiais e militares no combate às organizações criminosas e ao tráfico internacional de drogas.
Em 2026, forças colombianas realizaram operações contra estruturas do narcotráfico em cooperação com a DEA. Uma operação em Nariño resultou na apreensão de quase duas toneladas de cocaína.
Também existem registros históricos de cooperação americana com forças colombianas durante a luta contra grandes organizações do narcotráfico. No caso de Pablo Escobar, porém, é preciso ter cautela: existem relatos de participação ou apoio de unidades especiais americanas, mas não há comprovação pública de que a Delta Force tenha sido responsável pela morte do traficante. A operação final foi atribuída às forças colombianas.
Portanto, não seria correto afirmar simplesmente que a Delta Force é uma “tropa antidrogas”. Sua missão principal é o contraterrorismo e operações especiais, enquanto o combate internacional ao narcotráfico envolve principalmente agências como a DEA, além de forças militares e policiais dos países parceiros.
PCC E COMANDO VERMELHO ENTRAM EM UMA NOVA FASE
A classificação do PCC e do Comando Vermelho pelos Estados Unidos representa uma mudança importante.
As duas organizações brasileiras passaram a ser tratadas por Washington como organizações terroristas estrangeiras, colocando-as em uma categoria que pode permitir medidas muito mais agressivas contra seus integrantes, estruturas financeiras e redes internacionais.
Isso não significa automaticamente que soldados americanos entrarão no Brasil. Mas muda o cenário. O Brasil possui soberania territorial e forças próprias de segurança. Qualquer presença militar americana em território brasileiro envolveria questões extremamente delicadas de soberania, direito internacional e relações diplomáticas.
Por isso, a possibilidade de uma operação da Delta Force no Brasil deve ser tratada, neste momento, como uma possibilidade dentro de um cenário de escalada, e não como uma operação já anunciada.
UMA NOVA GUERRA CONTRA O NARCOTRÁFICO?
O que está acontecendo nas relações entre Brasil e Estados Unidos merece atenção. De um lado, Washington passou a considerar PCC e Comando Vermelho ameaças terroristas internacionais. De outro, o Brasil continua responsável constitucionalmente pela segurança de seu próprio território.
Se a cooperação entre os dois países aumentar, é possível que ocorram mais intercâmbio de inteligência, rastreamento financeiro, combate ao tráfico internacional de armas e drogas e operações conjuntas.
Mas uma eventual entrada de tropas americanas em território brasileiro seria algo completamente diferente. Seria uma mudança histórica. E, se algum dia uma unidade como a Delta Force fosse realmente empregada contra estruturas do PCC ou do Comando Vermelho, o Brasil estaria diante de um dos acontecimentos militares mais extraordinários de sua história recente.
Por enquanto, entretanto, a notícia correta é esta: existe um alerta oficial sobre a possibilidade de uso de força militar americana, mas não existe confirmação pública de que a Delta Force esteja a caminho do Brasil (Foto: Divulgação).
*O autor, Júlio César Prado é jornalista

Por Augusto César