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LITERATURA

70 anos de “Grande Sertão: Veredas”: Nova edição e biografia de Guimarães Rosa reforçam legado do autor

Augusto César Por Augusto César
70 anos de “Grande Sertão: Veredas”: Nova edição e biografia de Guimarães Rosa reforçam legado do autor

O escritor Guimarães Rosa atuou como diplomata na embaixada brasileira na Alemanha (Arquivo Público Mineiro)

Em comemoração aos 70 anos de “Grande Sertão: Veredas”, a Companhia das Letras lança edição especial de luxo da obra, enquanto Guimarães Rosa ganha nova biografia pela Nova Fronteira/Topbooks

Marcus Lopes – Especial para o Diario – Em janeiro de 1956, o jornal “Correio da Manhã”, do Rio de Janeiro, informava que o escritor e diplomata mineiro João Guimarães Rosa acabava de entregar à editora José Olympio os originais do seu primeiro romance: “Grande Sertão: Veredas”, livro que, nas palavras do prestigiado colunista literário da época, o pernambucano José Condé, “se tornará uma espécie de leitura suplementar de ‘Os sertões’, de Euclides da Cunha”.

Condé, que nasceu em Caruaru e foi um dos mais respeitados jornalistas culturais de sua época, tinha razão. “Grande Sertão: Veredas” completa 70 anos como uma das mais completas e respeitadas resenhas do sertão brasileiro. Rosa, a exemplo de Euclides de Cunha, conseguiu, por meio da história do jagunço Riobaldo e seu amor por Diadorim, traduzir não apenas as características naturais e sociais de uma terra forte, mas a alma do Sertão brasileiro, aquele sertão que, como escreveu Rosa, “é dentro da gente”.

Para isso, não bastava a imaginação do escritor. Era necessário conhecer a fundo esse mundo complexo e mágico do Sertão, o mesmo que, também nas palavras do escritor, “está em toda parte”. Mesclando o espírito de um desbravador e o olhar atento de um repórter, Rosa, em maio de 1952, viajou com uma comitiva de condução de gado pelo interior de Minas. A boiada era um ambiente familiar ao autor nascido em Cordisburgo, cidade que é considerada uma das portas de entrada do Sertão mineiro.

“Sou essencialmente um homem do Sertão. Todos os meus personagens existem e são todos os meus amigos”, declarou Rosa à imprensa, meses após o lançamento do livro. Graças ao sucesso estrondoso do livro, alguns desses amigos reais se tornariam tão importantes e conhecidos do público quanto os personagens do livro, como o vaqueiro Manuel Nardi, o “Manuelzão”, chefe da comitiva de gado.

Guimarães Rosa em seu gabinete na Divisão de Fronteiras do Itamaraty, no Rio de Janeiro (Arquivo Público Mineiro)

Guimarães Rosa em seu gabinete na Divisão de Fronteiras do Itamaraty, no Rio de Janeiro (Arquivo Público Mineiro)
O escritor Guimarães Rosa atuou como diplomata na embaixada brasileira na Alemanha (Arquivo Público Mineiro)

“Ele queria ser o mais revolucionário e inovador escritor do Brasil. Conseguiu”, atesta o jornalista e escritor Leonencio Nossa, autor da recém-lançada biografia de Guimarães Rosa (Editora Nova Fronteira e Topbooks, 736 páginas). Da infância em Cordisburgo, onde nasceu em 1908, à morte súbita no Rio de Janeiro, em 1967, poucos dias após a posse na Academia Brasileira de Letras, a obra é um dos mais completos tratados sobre a vida do médico, diplomata e escritor que revolucionou a literatura brasileira com a originalidade e a grandeza de suas obras.

“João Guimarães Rosa renovou o conto e o romance em língua portuguesa a partir da oralidade dos povos formadores do Brasil, do meio ambiente e de sua experiência pessoal”, atesta Nossa. Ao mergulhar na vida e na obra do escritor, o biógrafo traz à tona aspectos importantes da vida de Guimarães Rosa, como sua atuação, junto com a futura esposa, Aracy de Carvalho, na embaixada brasileira na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial. Desafiando as ordens do governo Getúlio Vargas, a embaixada emitiu vistos de entrada no país a judeus perseguidos pelo regime nazista, salvando-os da morte praticamente certa.

Em celebração aos 70 anos da publicação de “Grande Sertão: Veredas”, a Companhia das Letras lançou, em julho, uma edição especial de luxo. Além do projeto gráfico diferenciado, o volume inclui depoimentos de intelectuais influenciados pela obra, tais como: Eduardo Giannetti, Bia Lessa, Silviano Santiago, Heloisa Murgel Starling e Itamar Vieira Junior. “’Grande Sertão: Veredas’ está em diálogo com os grandes intérpretes do Brasil, como Euclides da Cunha e Sérgio Buarque de Holanda”, atesta a historiadora Heloisa Starling.

Em 1996, nos 40 anos de lançamento do clássico, o jornalista e escritor paulista Fernando Granato, autor do livro “Nas Trilhas do Rosa” (editora Scritta, 1996), refez a jornada de Guimarães Rosa pelo sertão mineiro, acompanhando uma boiada de Sete Lagoas a Três Marias. “Quando refiz a viagem, ainda estavam vivos alguns daqueles boiadeiros que acompanharam Rosa, inclusive Manuelzão”, lembra Granato.

Rosa, explica Granato, pretendia sintetizar o mundo no Sertão e, para isso, precisava conhecê-lo a fundo. O diplomata-escritor atuou como um repórter, anotando o jeito de falar do sertanejo, o nome das plantas, dos bichos etc. “Percebi que muito do que foi dito pelos boiadeiros a Rosa, e depois repetido para mim, havia sido colocado nas cadernetas de anotações do escritor e depois transferido para a própria obra literária”, lembra Granato.