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OPINIãO

O limite que a política não pode ultrapassar

Augusto César Por Augusto César
O limite que a política não pode ultrapassar
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Foto: Reprodução Instagram

EDMAR LYRA – A disputa pelo Governo de Pernambuco atravessou uma fronteira perigosa com a circulação de panfletos apócrifos acusando a governadora Raquel Lyra de ter matado o próprio marido, Fernando Lucena, falecido em 2022, vítima de um infarto. Não estamos diante de uma crítica administrativa, de um questionamento sobre decisões de governo ou do confronto legítimo entre projetos eleitorais. Trata-se de uma acusação gravíssima, anônima e que utiliza uma tragédia familiar como instrumento de ataque político. O episódio precisa ser encarado também sob a perspectiva da violência política de gênero, pois busca atingir uma mulher que exerce o poder por meio de sua vida íntima, de sua condição de viúva e de uma das experiências mais dolorosas que alguém pode enfrentar. Raquel pode e deve ser confrontada politicamente, mas nenhuma divergência autoriza transformar a morte de Fernando Lucena em instrumento de campanha.

Diante da gravidade do caso, é fundamental que haja uma investigação rigorosa para identificar quem produziu, financiou e distribuiu o material. O caráter apócrifo torna a apuração ainda mais necessária, porque quem faz uma acusação dessa dimensão e esconde sua identidade demonstra justamente a intenção de produzir dano sem assumir responsabilidade pelo que afirma. Cabe às autoridades buscar todos os elementos disponíveis para reconstruir a origem e a cadeia de distribuição dos panfletos. Se houver participação de pessoas ligadas a alguma campanha ou grupo político, isso deverá ser demonstrado e os responsáveis terão de responder pelos seus atos. Se a iniciativa não possuir qualquer ligação com as estruturas eleitorais, isso também precisa ser esclarecido. O que não pode acontecer é um episódio dessa gravidade terminar sem resposta, permitindo que práticas semelhantes se multipliquem durante a campanha.

A necessidade de apuração, entretanto, exige igualmente responsabilidade para evitar julgamentos precipitados. João Campos, candidato a governador pelo PSB e ex-prefeito do Recife, é o principal adversário de Raquel Lyra, mas essa condição não permite atribuir a ele ou à sua campanha responsabilidade pelos panfletos sem qualquer prova. João repudiou imediatamente o episódio, adotando a postura que se espera de alguém que disputa o principal cargo do Estado. Até que existam elementos concretos apontando autoria ou participação, qualquer tentativa de associá-lo ao material seria irresponsável. É perfeitamente possível condenar com veemência a violência sofrida pela governadora e, simultaneamente, preservar a presunção de inocência daqueles contra os quais não existe evidência. A polarização eleitoral não pode transformar adversários automaticamente em suspeitos.

Pernambuco precisa tirar desse lamentável episódio um compromisso mínimo para os próximos dias de campanha. Raquel Lyra e João Campos devem disputar a eleição no terreno da política, comparando governos, resultados, propostas, alianças e projetos para o futuro do Estado. A governadora precisa responder por seus atos administrativos e o candidato do PSB pelos compromissos que apresenta aos pernambucanos. Esse confronto pode ser duro e certamente será intenso. O que não pode ocorrer é a substituição do debate por ataques clandestinos que exploram uma tragédia familiar. Acusar uma mulher de responsabilidade pela morte do próprio marido, sabidamente vítima de um infarto, é uma agressão que ultrapassa a política e alcança sua dignidade pessoal. Agora, cabe às autoridades identificar os responsáveis. Sem prejulgamentos, sem exploração eleitoral e sem acusações sem provas. Porque tão importante quanto repudiar a violência política de gênero é impedir que a busca pelos culpados produza novas injustiças.