Ao desviar do assunto do fura-fila e criar cortina de fumaça com caso do teto salarial, João Campos mirou artilharia contra a própria guru política
A estratégia de João Campos (PSB) de desviar do assunto do fura-fila atacando a sua adversária, a governadora Raquel Lyra (PSD), de estar recebendo como procuradora concursada do Estado remuneração acima do teto, durante o debate de hoje na Rádio Cidade, em Caruaru, terminou expondo incoerência entre discurso e prática do próprio Campos em relação à sua guru política, a ex-primeira-dama Renata de Andrade Lima Campos.
Mãe do candidato e líder política do PSB de Pernambuco, ela tem recebido mensalmente, somando os penduricalhos como auxílio-alimentação (R$ 2,4 mil) e auxílio-saúde (R$ 4,7 mil), valores mensais que chegam a R$ 71,4 mil do Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE), onde é servidora efetiva e está lotada no gabinete do primo, o conselheiro Marcos Loreto. O valor do teto constitucional (que considera o recebimento bruto) é de R$ 46.366.19.
Caso a tese de Campos prospere – embora exista parecer do próprio TCE-PE confirmando a regularidade de o governador optar pela remuneração de sua carreira efetiva anterior à assunção do cargo, como ocorreu com Paulo Câmara (PSB) – Campos também deverá processar para que sua mãe devolva recursos.
De acordo com dados do próprio TCE-PE, a auditora de controle externo Renata Campos recebeu, no mês de fevereiro deste ano, por exemplo, R$ 47.526,70 de vencimento, somados a R$ 2.943,27 do exercício de função gratificada, R$ 2.376,33 de “vantagens pessoais”, R$ 6.491,26 de abono permanência, além de três tipos de indenização, como R$ 2.246,00 de auxílio-alimentação, R$ 4.277,40 de auxílio-saúde e mais R$ 9.041,40 de “outras indenizações”. Subtraindo um desconto de R$ 3.536,84 de “abate-teto”, o valor total chega a R$ 71.365,52.


Renata Campos ainda tem direito, conforme decisão do próprio Tribunal de Contas da União, de 2025, à pensão vitalícia referente ao tempo em que Eduardo Campos foi deputado federal. O valor a que teria direito soma atualmente cerca de R$ 9 mil/mês.
A estratégia dos marqueteiros de Campos, entre eles o publicitário Rafael Marroquim, ligado ao Conecta Recife, ignorou a realidade no entorno do próprio candidato e terminou expondo a dificuldade que o ex-prefeito tem de se explicar sobre o episódio que ficou conhecido como fura-fila. Ao tentar contra-atacar com narrativa que busca igualar os candidatos, João Campos deixou evidente a fragilidade do tema, que envolve possível utilização da máquina pública para barrar investigação de corrupção.
A Operação Barriga de Aluguel, deflagrada pelo Ministério Público do Estado de Pernambuco em 14 de agosto de 2025, anulada pelo juiz Rildo Vieira da Silva, que responde a uma reclamação disciplinar na Corregedoria do TJPE a pedido do CNJ, envolve dados sensíveis para a cúpula da gestão municipal. Pessoas próximas à família teriam atuado na contratação da empreiteira, a exemplo do ex-secretário-executivo de Saúde Luciano Temporal Carneiro, amigo do ex-prefeito e muito próximo do advogado Tomás Alencar. Luciano Temporal foi um dos principais assessores do ex-deputado federal Tadeu Alencar e ganhou papel de destaque na gestão Campos após o fim do mandato de Tadeu.
Há indícios de enriquecimento ilícito, burla ao processo licitatório e financiamento eleitoral, com recursos supostamente irregulares, de campanhas eleitorais no pleito de 2024.

Por Augusto César