A praça estava cheia, mas o silêncio era maior. Não era respeito. Era o silêncio de quem sabe: ali, entre bandeiras e promessas, não se negocia futuro – se negocia preço.
O candidato chegou blindado, com comitiva de fora.
Sorrisos ensaiados, abraços calculados, fotos com crianças que nunca mais verá. Trazia o que abre portas em cidades pequenas: dinheiro, influência, cabos de profissão.
Os cabos são os donos do território. Conhecem cada rua, cada fome, cada vulnerabilidade. Não fazem campanha – fazem negócio. E o povo, cansado, as vezes aceita.
Na periteria, uma mulher contou: recebeu cem reais e um botijão de gás. “Disseram que era ajuda, mas todo mundo sabe o que é.” Votou em quem quis. O dinheiro ficou. O voto, dizem, é livre. A fome, não.
Comprar voto é crime. Vender também. Artigo 299 do Código Eleitoral: até quatro anos de cadeia para os dois. Mas a lei, nas ruas, vira papel molhado.
Em 2026, a PF registrou mais de 1,2 mil inquéritos por crimes eleitorais. Compra de voto lidera. Mas a impunidade segue. Cassação demora. O mandato já foi exercido. O dinheiro, gasto. A cidade, ferida.
A política envergonha. Vereador teve diploma cassado, mas a Câmara manobra para manter – é da base, é lacaio do prefeito dos escândalos.
Carros-forte percorrem a cidade e a zona rural nas madrugadas. Malas cheias. Votos comprados.
Justiça cega. Quem devolve a dignidade?
A cidade continua. Os mesmos cabos circulam. Os mesmos candidatos voltam, com novos partidos, velhos métodos. O povo sabe. Vê. Cala — ou finge.
Porque denunciar custa caro. Porque o cabo é vizinho, é primo, é quem “ajuda”.
A política virou balcão. E no balcão, tudo tem preço
— menos a vergonha.
No fim da tarde, bandeiras recolhidas, palanque desmontado. Restou a praça vazia e o mesmo silêncio. A cidade não grita. Sussurra. E quem tem ouvido, escuta.
Gerson Carvalho
Garanhuns: a cidade que virou balcão

Por Augusto César