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ECONOMIA

Motor da insatisfação, alta no preço dos alimentos é percebida por 72% dos eleitores na Genial/Quaest e pressiona Lula

Augusto César Por Augusto César
Motor da insatisfação, alta no preço dos alimentos é percebida por 72% dos eleitores na Genial/Quaest e pressiona Lula

 

Lula durante solenidade no Palácio do Planalto — Foto: Ricardo Stuckert/PR

Mayra CastroEsther GamaLuis Felipe Azevedo e Sérgio Roxo — Rio e Brasília – A menos de seis meses das eleições de outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta desafios para reverter a queda de popularidade em seu terceiro mandato e manter vantagem na disputa pela reeleição, aponta nova pesquisa Genial/Quaest, feita entre 9 e 13 de abril e divulgada na quarta-feira. O revés ocorre em um contexto no qual a percepção negativa sobre a economia, puxada pela inflação de alimentos, ganha fôlego entre os brasileiros — os preços voltaram a subir, depois de meses sob controle, diante dos impactos da guerra no Oriente Médio, chegando ao maior nível do atual governo do petista, quadro que já tem se refletido no humor dos eleitores, que também se dizem mais endividados.

O levantamento mostra que houve um salto de 58%, em março, para atuais 72% no total de entrevistados que perceberam avanço nos valores dos alimentos no último mês. Além disso, metade dos entrevistados acredita que a economia do país piorou nos últimos 12 meses. Outro foco de preocupação é o endividamento das famílias. A Genial/Quaest mostra que 72% afirmam ter poucas ou muitas dívidas, índice que era de 65% em maio de 2025.

— O ambiente não parece favorável ao governo neste momento. A percepção do eleitorado é que o noticiário continua mais negativo (48%) do que positivo (23%). A percepção da população é que a economia está piorando — avalia o diretor da Quaest, Felipe Nunes. — O principal motor da piora parece ser o preço dos alimentos nos mercados.

A pesquisa, que ouviu 2.004 eleitores, indica que o cenário de pressão econômica impacta a tendência de deterioração da popularidade de Lula já observada nos últimos meses. Desde o início do ano, os eleitores que desaprovam a gestão federal passaram de 49% para 52%, numericamente o maior patamar desde julho do ano passado. Já o apoio ao governo recuou de 47% para 43%.

Ao mesmo tempo, Lula perdeu vantagem para seus principais rivais na corrida eleitoral. Pela primeira vez, o senador Flávio Bolsonaro (PL) apareceu numericamente à frente de Lula em simulações da Quaest para o segundo turno, embora ambos sigam empatados na margem de erro, de dois pontos percentuais (veja mais na página 6).

— A economia não é suficientemente capaz de prever sucesso ou fracasso eleitoral, mas tem importância na análise. A questão do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) é um exemplo. Uma vez que o brasileiro sente mais o bolso, a tendência é que, nesse cenário de polarização, a economia pode fazer diferença para o grupo de indecisos — diz a cientista política Carolina Botelho, do INCT/SANI.

Na avaliação do cientista político Murilo Medeiros, da UNB, a “carestia é uma das piores notícias possíveis para qualquer governo em ano eleitoral”.

— Deteriora a imagem do governo e afeta diretamente o humor do eleitor. E eleição, no fim das contas, é decidida muito mais pelo bolso do que pelo discurso do governo ou por indicadores macroeconômicos.

Amparo nos índices

A percepção dos eleitores sobre o preço dos alimentos é confirmada pelos indicadores da economia. A alimentação no domicílio subiu 1,94% nos resultados do IPCA de março, divulgado na última sexta. Esse percentual é bastante superior ao 0,23% de fevereiro e o maior desde abril de 2022, quando o índice oficial de inflação do país chegou a 2,59%.

Entre as principais altas de março estão o tomate, a cebola, a batata-inglesa, o leite longa vida e as carnes. Esses produtos estão muito presentes na rotina dos brasileiros, e seus reajustes tendem a gerar maior incômodo na população em relação à inflação.

Nem no fim de 2024 os números eram tão elevados. Na época, a inflação estava tão pressionada que o presidente veio publicamente cobrar medidas dos varejistas para a contenção do preço dos alimentos. Economistas apontam que, mesmo com as medidas para subsidiar combustíveis, o governo não conseguiu evitar as consequências na inflação do fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã em retaliação aos ataques de EUA e Israel, que elevou a cotação internacional do petróleo.

Ainda que o governo tente minimizar o impacto, o aumento dos combustíveis acelerou a inflação em março e segue pressionando preços em abril, na avaliação de varejistas e consumidores. O transporte rodoviário tem impacto sobre os outros setores, principalmente no de alimentos, muito dependente dos caminhões. O custo dos fertilizantes também sofre impacto do conflito no Oriente Médio.

Os custos dos produtores e comerciantes acabam repassados aos consumidores nas feiras e supermercados. O feirante Victor Vinícius, de 27 anos, já sente um peso maior do frete nas suas contas. Ele diz que está pagando R$ 98 em uma caixa de maçã que antes era R$ 80, enquanto no supermercado o quilo está quase R$ 20. A fruta registrou queda no IPCA em março, mas, nas bancas, o preço está subindo neste mês.

— Aqui a gente vende por quantidade, mas, quando você coloca tudo na ponta do lápis, vê que não tem muita diferença, está tudo caro da mesma forma — diz.

Alguns consumidores estão mais cautelosos, como conta o casal André e Rebeca Cunha, de 36 e 33 anos, que foi fazer a compra da semana hoje na feira da Rua Humaitá, na Zona Sul do Rio.

— Temos tentado variar onde vamos comprar as frutas e verduras. Estamos preferindo vir no final da feira, porque os preços ficam mais viáveis — conta André, referindo-se à famosa “xepa”. — A gente procura alternativas mais baratas. Antes, comprávamos no mercado, mas a feira, nesse horário, tem mais promoções.

O alívio nos preços pode demorar a chegar, o que reforça o desafio de Lula para ampliar a popularidade antes das eleições. Segundo especialistas, os próximos meses podem contar com a combinação de pressões derivadas da guerra e das condições climáticas sobre o custo dos alimentos.

— Vêm problemas pela frente na precificação dos alimentos, não só pela questão do frete, mas, mais adiante, via fertilizantes. No segundo semestre, ainda tem o El Niño (fenômeno climático que altera regime de chuvas). Então, há novas pressões de alimentos na agenda — frisa Fábio Romão, economista sênior da Logos Economia.

Quando fala de fertilizantes, o especialista se refere ao impacto que o conflito no Oriente Médio tem sobre o preço de alguns desses insumos essenciais para a agricultura, sobretudo os nitrogenados, com interrupções na produção e exportação, reduzindo a oferta global. Apesar de ser um grande produtor rural, o Brasil não produz internamente fertilizantes suficientes para o agronegócio.

Ainda assim, os preços desse insumo tendem a seguir as cotações internacionais, que têm contribuído para elevar o preço internacional de commodities agrícolas como milho e soja, culturas de larga escala altamente dependentes de fertilizantes.

— Quando a gente estiver olhando o plantio da segunda parte da safra deste ano, a questão do aumento dos fertilizantes vai aparecer. Porque o que está sendo vendido agora já estava plantado. A soja já foi plantada no final do ano passado, por exemplo — explica Flávio Serrano, economista-chefe do banco BMG.

Apostas eleitorais

O Planalto mira uma série de iniciativas para reagir nas pesquisas, entre elas reduzir o endividamento das famílias e aprovar o projeto de fim da escala 6×1, com projeto enviado ao Congresso. Outras apostas são o possível lançamento de novas linhas de crédito para taxistas, motoristas de aplicativo e caminhoneiros trocarem de veículo, a ampliação do programa de reforma de casas e a tentativa de reduzir a fila do INSS.

Uma dificuldade adicional é tornar o Desenrola Brasil, iniciativa federal para renegociação de dívidas, mais conhecido. Segundo a Genial/Quaest, embora 46% aprovem a medida e 70% defendam que o governo invista em ações do gênero, quase metade dos brasileiros (45%) ainda afirma não conhecer o programa.

Os dados mostram também que houve uma mudança no perfil do endividamento. A fatia dos brasileiros que afirma não ter dívidas não só é minoria, como recuou de 34%, em maio do ano passado, para 28%. No período, a parcela que declara ter poucas dívidas subiu de 33% para 43%, enquanto aqueles que dizem ter muitas dívidas passaram de 32% para 29%.

Em relação à política tributária, há estabilidade na percepção sobre a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, sancionada em novembro. Hoje, 31% dizem ter sido beneficiados pela medida. Nesse grupo, metade não vê diferença na renda. (*Estagiária sob supervisão de Luciana Rodrigues)

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