Luiz Neto – Na política existe um verbo silencioso que quase ninguém admite, mas todo mundo entende: passar recibo.
Não precisa nota oficial. Não precisa discurso inflamado. O gesto entrega. O semblante entrega. A pressa entrega.
E foi exatamente isso que aconteceu ontem na Assembleia Legislativa de Pernambuco.
Logo após a divulgação das pesquisas que apontaram queda do ex-prefeito do Recife e pré-candidato ao Governo do Estado, João Campos, deputados do PSB resolveram ocupar a cena política com críticas, denúncias e uma tentativa clara de mudar o eixo do debate estadual.
Na política, coincidências quase nunca são coincidências.
O PSB passou 16 anos governando Pernambuco. Os problemas apresentados ontem não nasceram agora. O estado conhece muitos deles há décadas. Mas bastou a curva das pesquisas mudar para surgir uma súbita necessidade de tensão política dentro da ALEPE. E um detalhe é preciso salientar, muito mais não se pode fazer pela saúde dos pernambucanos por manobras orquestras naquela casa.
Passar recibo é exatamente isso.
É quando a reação vem antes da digestão. Quando o incômodo escapa pela estratégia. Quando o adversário cresce ou resiste mais do que o esperado e alguém resolve transformar nervosismo em discurso público.
O movimento de ontem não pareceu apenas oposição ao governo. Pareceu preocupação com o futuro.
Porque pesquisa, em política, tem um efeito cruel: ela mexe menos com o eleitor e mais com quem vive da política. Parlamentares sentem. Prefeitos sentem. Aliados sentem. O sorriso muda. O telefone toca mais rápido. E a ansiedade ocupa espaços onde antes existia tranquilidade.
Talvez o maior problema de passar recibo seja justamente esse: o eleitor percebe.
E quando a política deixa de agir por convicção e passa a agir por medo, até o silêncio da Assembleia faz barulho.

Por Augusto César