Operação foi realizada após meses de diligências prévias, mas STF, via decisão monocrática de Gilmar Mendes, viu “exageros” em solicitações Foto: MPPE
Em 14 de agosto de 2025, Gaeco do MPPE realizou operação para apurar suposto esquema de corrupção na Prefeitura do Recife de 2021 a 2025; ataque às investigações terminou com trancamento do inquérito em decisão monocrática do Suprem
MANOEL MEDEIROS – Há exato um ano, em 14 de agosto de 2025, o Ministério Público do Estado de Pernambuco (MPPE) deflagrava a operação Barriga de Aluguel com o objetivo de apurar contratos de engenharia com graves indícios de fraude (manutenção predial) em mais de 600 equipamentos públicos da Prefeitura do Recife, como escolas e postos de saúde, no período de 2021 a 2025. As apurações envolvem pagamentos suspeitos de mais de R$ 210 milhões a um grupo de empreiteiras contratado sem licitação e que teriam relação com a cúpula da gestão municipal.
O episódio rememora o movimento realizado pelo ex-governador Paulo Câmara (PSB) em 2018, quando enviou à Assembleia Legislativa um projeto que extinguiu a Delegacia de Crimes contra a Administração e Serviços Públicos (Decasp), aprovado em regime de urgência com ampla maioria (30 votos a favor e 6 contrários). A delegacia havia realizado, nos anos anteriores, diversas operações contra corrupção. A extinção gerou forte repercussão política, sendo vista por críticos como uma medida para interromper apurações, entre elas a que envolvia a Casa de Farinha (merenda).
No caso da Barriga de Aluguel, desde agosto de 2025 trava-se uma verdadeira batalha para silenciar e anular os trabalhos investigativos do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPPE e também de outros órgãos de fiscalização federais e estaduais, já que foram instauradas apurações no TCE (duas auditorias), TCU, MPF e Polícia Federal, ainda sem divulgação de possíveis resultados.
A ofensiva anti-investigação teria inclusive relação com a nomeação do candidato fura-fila do concurso de Procurador Judicial do Recife, filho do juiz que executou a primeira ação em prol da anulação do processo: em seis de novembro de 2025, como um dos novos magistrados da Vara responsável pelo processo, Rildo Vieira Silva recebeu por volta das 16h e às 19h anulou toda a operação. Semanas depois, seu filho foi nomeado na vaga de PcD do concurso público mesmo tendo feito a inscrição na ampla concorrência. Após denunciada a transação, a nomeação foi tornada sem efeito. Sobre esse caso, a Prefeitura alega que com a nomeação do candidato apto, tudo já foi esclarecido e não houve irregularidades.
Desde então, o inquérito ficou paralisado, tendo sido liberada sua continuidade por decisão de três desembargadores da 2ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco (TJPE) em 28 de janeiro. Dois dias depois, por solicitação de secretárias da Prefeitura do Recife, Gilmar Mendes viu ilegalidades no inquérito e decidiu trancá-lo. Apesar de o MPPE ter recorrido ainda em fevereiro, o pleito sequer foi avaliado até aqui, seis meses depois.
Há suspeitas de enriquecimento ilícito, pagamento em duplicidade de obras, burla ao processo de licitação, lavagem de capitais utilizando empresas vinculadas a políticos e até mesmo o pagamento de materiais de campanha de 2024 com dinheiro dos contratos nunca foram confirmados ou descartados justamente pela pressão do sistema para silenciar o trabalho de combate à corrupção.
Os achados do MPPE apontam para a existência de um complexo sistema de dissimulação de recursos públicos, revelado pelos Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs), incluindo: transferências de mais de R$ 60 milhões da Sinarco (construtora mineira sem sede em Pernambuco) para uma empreiteira local após recebimentos da Prefeitura do Recife; uso de possíveis “laranjas” de baixa renda, como um empregado que, com salário de R$ 2.344,16, recebeu R$ 4.323.776,01 e a realização de 743 saques em espécie, totalizando R$ 3,4 milhões, com valores fracionados para burlar os mecanismos de controle.
O envolvimento de um servidor comissionado da Prefeitura do Recife no recebimento indireto de valores, e movimentações financeiras incompatíveis do sócio da empresa contratada para fiscalizar os serviços da Sinarco também foram identificados.


Por Augusto César