Mergulhe na rica literatura russa com autores clássicos e contemporâneos que oferecem um olhar profundo sobre a alma e a história do país
O nome de Fiódor Dostoiévski é quase um sinônimo de literatura russa, mas a riqueza cultural do país vai muito além de “Crime e Castigo”. Em um momento em que a Rússia domina o noticiário global, mergulhar em outros autores clássicos e contemporâneos oferece uma visão mais ampla e profunda sobre sua história e sociedade. Conhecer essas vozes é entender as diferentes facetas de uma nação complexa.
Para quem deseja ampliar o repertório, apresentamos cinco escritores que são fundamentais para compreender a alma russa em suas mais variadas formas. Cada um deles traz um estilo único e aborda temas que continuam atuais, da política à condição humana.
Liev Tolstói
Frequentemente visto como o grande rival de Dostoiévski, Tolstói pintou murais épicos da sociedade russa. Em obras como “Guerra e Paz” e “Anna Karenina”, ele não apenas narra a vida da aristocracia, mas também explora grandes questões filosóficas e morais. Sua escrita é grandiosa e detalhista, focada nos movimentos da história e no lugar do indivíduo dentro dela.
Anton Tchékhov
Considerado o mestre da narrativa curta e do teatro moderno, Tchékhov tinha um talento singular para capturar a melancolia e o humor sutil da vida cotidiana. Suas peças, como “A Gaivota” e “O Jardim das Cerejeiras”, revelam a paralisia e as esperanças frustradas da elite russa no fim do século XIX. Seus contos são retratos precisos e sensíveis da fragilidade humana.
Mikhail Bulgákov
Ativo durante o período soviético, Bulgákov usou a sátira e o fantástico para criticar a burocracia e o autoritarismo de seu tempo. Seu romance mais célebre, “O Mestre e Margarida”, escrito em segredo e publicado décadas após sua morte, é uma obra-prima que mistura política, religião e comédia de forma ousada e original. A leitura é essencial para entender a resistência cultural sob regimes totalitários.
Ivan Turguêniev
Um dos primeiros escritores russos a ganhar fama na Europa, Turguêniev é conhecido por sua prosa elegante e por um olhar mais ocidentalizado. Em “Pais e Filhos”, ele capturou com perfeição o conflito de gerações e o surgimento do niilismo entre os jovens intelectuais russos. Suas obras são mais concisas que as de seus contemporâneos, mas igualmente profundas na análise social.
Svetlana Aleksiévitch
Ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015, Aleksiévitch oferece uma perspectiva contemporânea e documental. Embora seja bielorrussa, ela escreve em russo e sua obra é um registro poderoso da história soviética e pós-soviética. Em livros como “Vozes de Tchernóbil”, ela cria um “romance de vozes”, dando espaço para que pessoas comuns contem suas próprias histórias sobre grandes tragédias.
Uma ferramenta de IA foi usada para auxiliar na produção desta reportagem, sob supervisão editorial humana.
PS do Blog: Dostoievski, Gogol, Goncharov, Sholokhov, Bely, Pushkin, Tolstói, Chekhov, Platonov, Nabokov, Lermontov, Saltykov-Shchedrin, Turgenev, Leskov, Gorky, Maiakovski, Krzhizhanovsky, Grossman, Griboyedov, Remizov e os irmãos Strugatsky são os autores russos que eu mais recomendo.
De Tolstói a Dostoiévski, gênios da literatura russa foram consumidos por vícios. Entre jogos de azar e drogas, adultério e bebedeira, grandes escritores russos experimentavam de tudo.
Ninguém é perfeito, claro, e até os maiores representantes da classe intelectual têm suas recaídas. Os maiores escritores e poetas russos não eram diferentes, e viver ao lado deles podia ser uma enorme dor. O Russia Beyond compilou uma lista dos vícios que acometiam os gigantes da literatura e como eles conseguiram encontrar a cura.
- Fiódor Dostoiévski, viciado em jogo
Famoso por seus profundos romances psicológicos, que refletem as facetas mais obscuras da alma humana, Dostoiévski (1821–1881) teve uma vida difícil – e um dos monstros que ele teve que combater era o vício no jogo. Em 1862, de férias na Alemanha, o escritor experimentou o jogo na roleta e foi consumido pela paixão.
Durante uma década, Dostoiévski jogou como se não houvesse amanhã, tentando ganhar todas – e só perdendo tudo. A mulher do escritor, Anna, lembrava-se: “Ele costumava voltar para casa pálido e exausto, pedindo dinheiro e voltando ao cassino … E assim ia, até perder tudo o que tínhamos. Ele costumava chorar, ajoelhando-se diante de mim, pedindo perdão …”.
O escritor percebeu sua fraqueza. “Minha natureza é vil e apaixonada demais”, escreveu a um amigo ao lhe pedir dinheiro depois de perder tudo na roleta. Mas ele foi forte o suficiente para superar o vício.
Depois de 1871, quando nasceu o primeiro filho, ele nunca mais jogou. Anteriormente, em 1866, Dostoiévski escreveu um romance refletindo o próprio vício, “O jogador”.
- Lev Tolstói, viciado em sexo
Nobre e humanista, Lev Tolstói (1828–1910) lutou toda a vida contra o desejo obsessivo por mulheres. “Tenho que dormir com mulheres. Caso contrário, o desejo não me dá um único minuto livre”, escreveu em seu diário em 1853.
Ele mantinha relações sexuais fora do casamento com muitas mulheres, de nobres a camponesas, e teve que ser tratado de doenças venéreas pelo menos duas vezes.
Isto, junto aos altos padrões morais (que Tolstói impôs a si próprio, mas nos quais constantemente falhava), levou a um sentimento permanente de culpa.
Seus diários estão cheios de notas arrependidas: “Sou nojento”. Depois de se casar com Sofia em 1862, ele parou e, em 1890, chegou a escrever “A Sonata a Kreutzer”, romance curto em que criticava toda a noção de relações sexuais e clamava pela castidade.
- Serguêi Iessênin (e muitos, muitos outros), alcoólatra
Poeta que louvava a vida rural e a natureza russa, Serguêi Iessênin (1895-1925) foi vítima do alcoolismo e se suicidou após sofrer uma profunda depressão causada pelo excesso de bebida.
Como lembravam seus amigos, no início ele passava uma imagem pública de bon vivant, que desfrutava da vida e de uma bebida após a outra, mas depois o vício tomou o poeta.
“Envenenei-me com este veneno amargo… olhos azuis molhados de vodca”, escreveu Iessênin sobre si próprio um ano antes do suicídio.
Seu amigo Vladímir Tcherniavski reproduziu uma frase desesperada de Iessênin posteriormente: “Como você não entende? Eu não posso senão beber… Se eu não bebesse, como sobreviveria a isso?”
Iessênin está longe de ser o único escritor russo que teve problemas com a bebida. O mesmo aconteceu com Aleksander Fadéiev, que liderou a União dos Escritores Soviéticos, o escritor dissidente Venedikt Eroféiev e Serguêi Dovlátov, escritor que deixou Leningrado para trás em busca de refazer a vida em Nova York.
Fadéiev deu um tiro em si mesmo e os outros dois morreram relativamente jovens. Parece que, para os escritores russos, a bebedeira obsessiva nunca acaba bem. E não só para eles.
- Mikhaíl Bulgákov, viciado em morfina
Famoso por seu místico romance “O mestre e Margarida” e também por muitas outras grandes obras, Bulgákov (1891-1940) não escolheu a vida de viciado. Ele se viciou em morfina por acidente ao servir como médico na Rússia provincial, em 1917.
Depois de se infectar acidentalmente, ele teve que tomar grandes doses de morfina para aguentar a dor, e a droga acabou tomando conta dele.
“Todos os dias ele acorda e me diz: ‘Vá à farmácia, traga-me morfina’”, relembrou sua primeira mulher, Tatiana Lappa. “Eu tinha que percorrer toda a cidade para arranjar alguma coisa e ele estava esperando por mim, sombrio e assustador, mas sempre me implorando para não colocá-lo no hospital.” Sem morfina, o escritor podia ficar perigoso: certa vez ele jogou uma luminária na mulher e, de outra monta, quase atirou nela (mas não o fez, ele não era William S. Burroughs, no final das contas).
Lappa ajudou Bulgákov a se recuperar reduzindo lentamente a dose. Depois, Bulgákov escreveu “Morfina”, romance em que retrata o vício. Diferentemente dele, porém, o protagonista comete suicídio sem ter ninguém a seu lado. Lappa impediu tal final infeliz para Bulgákov, mas isso não o impediu de deixá-la depois.
Confira as últimas palavras murmuradas por escritores russos e descubra quem disse, no leito de morte,“É você, idiota?”.
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Por Augusto César