Demora no início da auditoria beneficiou continuidade de compras milionárias a empresas que podem ter Romerinho Jatobá como sócio oculto. Fotos: Alysson Maria/TCE-PE e Rodolfo Loepert / PCR
Pedido de investigação feito pelo Ministério Público de Contas sobre esquema de empresas com possíveis vínculos com presidente da Câmara ficou parado enquanto faturamento do grupo aumentava
Masnoel Medeiros – Um possível esquema de corrupção envolvendo R$ 59 milhões pagos de 2022 a 2026 pela gestão João Campos/Victor Marques a quatro empresas distribuidoras de material de limpeza que podem ter ligação com o presidente da Câmara do Recife, vereador Romerinho Jatobá (PSB), até mesmo como sócio oculto, demorou nove meses na gaveta do relator do Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco (TCE-PE) para começar a ser apurado com mais profundidade.
O Blog teve acesso ao pedido de investigação solicitado pelo Ministério Público de Contas do Estado de Pernambuco em 20 de agosto de 2025, mas a auditoria preliminar – e interna – do Tribunal só andou mais efetivamente, com a solicitação de documentos à Prefeitura do Recife, em 20 de maio deste ano, nove meses depois. Os fatos também foram noticiados à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal em decorrência de que parte da fonte de pagamentos dos contratos – principalmente em relação ao Fundo Municipal de Assistência Social – foi federal.
Enquanto isso, R$ 11,6 milhões em novos contratos ou aditivos contratuais foram assinados com as empresas do grupo: a Jatobarretto, a GCA Comércio, a Primordial Comércio e a Indústria de Papéis Leão do Norte. Três delas não existiam antes da gestão do ex-prefeito João Campos (PSB) e foram contratadas a partir de apresentação de atestados de capacidade técnica (que provariam que tinham condição de fazer os fornecimentos) assinados pela RM Terceirização, empresa do pai do vereador do Recife.
O Ministério Público de Contas cumpriu seu papel ao analisar denúncia anônima apresentada ao órgão em cinco de junho do ano passado. Em pouco mais de dois meses, concluiu um relatório e apresentou ao Tribunal de Contas um pedido de aprofundamento das investigações. “Os indícios reunidos são suficientes para demonstrar a possibilidade de cometimento de irregularidades que se inserem na esfera de apuração desta Corte de Contas”, afirmou a Procuradoria de Contas.

Em contrapartida, apenas em 20 de maio deste ano o relator das contas da Secretaria de Educação do Recife – a principal unidade gestora compradora dos materiais de limpeza ao grupo empresarial investigado -, conselheiro Ranilson Ramos, deu prosseguimento aos trabalhos, solicitando à secretária de Educação do Recife, Cecilia Cruz, documentações relativas aos procedimentos de licitação com indícios de direcionamento.

A respeito da alegada morosidade do Tribunal de Contas do Estado, o Ministério Público de Contas voltou a ser provocado no último dia 1º de julho. Em parecer a respeito do qual o Blog também teve acesso, o procurador-geral, Ricardo Alexandre, afirmou que o órgão vai “aguardar o resultado dos trabalhos do órgão técnico”: “a medida resguarda a independência da unidade de auditoria e reserva a atuação ministerial para o momento de razoável precisão”.

Por Augusto César